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Oxoboranos estáveis são isolados após mais de 60 anos de buscas de químicos

Químicos da Universidade de Würzburg isolam oxoboranos estáveis, moléculas com ligação tripla entre boro e oxigênio que resistiam a pesquisas havia mais de 60 anos.

Por Roberto Andrade ·
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Repórter Capixaba

O boro é um elemento que costuma evitar ligações triplas, e por isso criar moléculas em que ele se une dessa forma sempre foi um desafio. Agora, uma equipe de químicos da Universidade de Würzburg, na Alemanha, conseguiu preparar e isolar uma série de oxoboranos estáveis, compostos com ligação tripla entre boro e oxigênio que resistiam aos pesquisadores há mais de 60 anos.

Em química, uma ligação tripla ocorre quando dois átomos compartilham três pares de elétrons. Esse tipo de ligação costuma tornar a estrutura mais compacta e mais intensa, mas, no caso do boro, a tendência natural é formar outras combinações. Por isso, os oxoboranos eram vistos como moléculas tão instáveis que dificilmente poderiam ser estudadas fora de condições extremas.

Desde pelo menos o início dos anos 1960, químicos de vários países tentavam produzir esses compostos. Eles chegaram a ser detectados em situações muito específicas, sua existência foi deduzida a partir de reações químicas e alguns derivados foram obtidos. Faltava, porém, conseguir isolar exemplos estáveis o suficiente para serem analisados com calma.

O grupo liderado pelo professor Holger Braunschweig vem trabalhando com moléculas de boro com ligações múltiplas há mais de 15 anos. Em 2012, a equipe relatou a primeira molécula com ligação boro-boro tripla e, em 2025, a primeira molécula neutra com ligação boro-carbono tripla. Com isso, restava, na primeira linha do bloco p da tabela periódica, apenas um desafio: justamente os oxoboranos orgânicos.

A virada veio quando os doutorandos Lukas Lubczyk e Christian Markl combinaram uma molécula chamada diboracumuleno com diferentes cetonas, substâncias comuns em laboratórios de química orgânica. Os dois, de forma independente, perceberam que as reações haviam produzido sólidos laranja ou amarelos fora do comum. “A descoberta foi uma agradável surpresa. Nunca imaginei que o diboracumuleno reagiria daquela forma, e muito menos com vários substratos simples diferentes”, afirma Lubczyk.

Para Braunschweig, o resultado também foi inesperado. Entre vários desfechos considerados mais prováveis, os oxoboranos, buscados há décadas, acabaram sendo o principal produto das reações. “Quase todos na área tinham desistido dos oxoboranos, por acreditarem que eram instáveis demais para serem isolados. Ficamos surpresos ao vê-los se formar espontaneamente e permanecer tempo suficiente para serem estudados”, diz o pesquisador.

Ao todo, foram preparados três oxoboranos, o que indica que o método pode levar a muitos outros compostos semelhantes. Os cálculos computacionais que embasam a análise foram feitos pela equipe do professor Ashwini K. Phukan, da Universidade de Tezpur, na Índia. Agora, os pesquisadores querem descobrir até onde essa abordagem pode ser levada e se ela serve para produzir outras moléculas esquivas em diferentes pontos da tabela periódica.

O estudo, intitulado “Synthesis and isolation of stable oxoboranes”, foi publicado em 2026 na revista Nature Chemistry. Para quem não trabalha com química, o avanço mostra que compostos considerados instáveis demais podem existir quando as condições certas são encontradas, e que a ciência ainda tem espaço para surpresas em problemas que pareciam resolvidos.

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