A Noite Estrelada: astrônomos identificam constelação retratada por Van Gogh
Pesquisadores identificam a constelação de A Noite Estrelada, de Van Gogh, e sugerem que a tela foi pintada pelo menos um mês depois do que se pensava.
A Noite Estrelada, uma das pinturas mais conhecidas de Vincent van Gogh, ganhou uma nova leitura científica. Pesquisadores afirmam ter identificado a constelação retratada na tela e sugerem que a obra pode ter sido pintada pelo menos um mês depois do que se imaginava por mais de um século.
Em maio de 1889, Van Gogh deu entrada voluntariamente no asilo Saint-Paul-de-Mausole, na França, após um colapso nervoso que levou à automutilação de sua orelha esquerda. Nos meses seguintes, da janela do quarto no segundo andar, ele pintou o quadro que se tornaria um dos mais famosos da história da arte.
Há mais de cem anos, especialistas discutem se o céu da pintura é fruto da imaginação do artista ou um registro fiel do que ele via. Astrônomos já tentaram usar as estrelas da tela para descobrir o horário e o local exatos da criação da obra, mas chegaram a conclusões diferentes.
Segundo relatos, Van Gogh começou o trabalho pouco antes do nascer do sol, em uma noite de junho, a partir da vista que tinha do local. Ele também teria incluído na cena um vilarejo da infância, na Holanda. Em carta ao irmão Theo, escrita em 18 de junho de 1889, ele descreveu o céu antes do amanhecer: “Observando o céu pela janela antes do amanhecer, notei que estava límpido, nada além de uma estrela muito grande, que só poderia ser a Estrela d’Alva (Planeta Vênus)”.
Isso não prova que a tela nasceu daquela observação, já que o pintor poderia ter se inspirado na paisagem e ampliado o que viu. Ainda assim, para quem considera a obra um registro fiel do céu, um novo estudo publicado na revista Scientific Reports traz pistas sobre qual constelação Van Gogh estaria pintando.
Segundo o artigo, as estrelas da pintura correspondem ao aglomerado em forma de V das Híades, na constelação de Touro, como ele aparecia em 22 de julho de 1889. Se a identificação estiver correta, a obra teria sido feita bem depois do período especulado até agora.
Um dos principais indícios está no formato da Lua. Por volta de 18 e 19 de junho, período historicamente associado à produção da tela, o satélite apareceria mais cheio do que o fino crescente retratado no quadro. Já em 22 de julho, sua aparência seria mais compatível com a imagem criada pelo artista. Nessa mesma data, Vênus e as Híades nasciam juntos na região leste do céu.
“Aos meus olhos, o aglomerado estelar em A Noite Estrelada era o das Híades, na constelação de Touro. Mas estudos anteriores o associavam a Áries”, disse o pesquisador espacial Elijah Jeong-hyun Kim, autor do artigo. “Naquele momento, tive certeza de que esta pintura merecia ser estudada.”
Durante muito tempo, a constelação associada à obra foi Áries, situada perto de Vênus. Essa teoria ganhou força, em parte, por causa da carta de 18 de junho, em que Van Gogh menciona a Estrela d’Alva.
Outros documentos do pintor, no entanto, sugerem que a tela pode ter sido feita em várias sessões, com as estrelas observadas a partir do fim de julho. Os pesquisadores ressaltam que a menção a um “novo estudo” do céu estrelado não significa que o quadro estivesse concluído naquela data.
Além disso, as cartas de Van Gogh não citam Áries, embora mencionem com frequência a observação de Vênus. Segundo Kim, as estrelas de Áries são pouco brilhantes e dificilmente inspirariam um pintor no amanhecer, horário em que o artista costumava observar o céu.
Para comparar as constelações, a equipe usou o software Procrustes, que busca padrões a partir da forma formada pelas posições relativas de um grupo de estrelas. Assim, cores e tamanhos, que podem ser apenas escolhas artísticas, deixam de pesar na análise.
Essa “análise de forma” associou cinco estrelas da pintura a cinco estrelas do aglomerado das Híades. A correspondência teve o melhor ajuste estatístico entre todas as constelações testadas, incluindo Áries.
O caso mostra como uma obra de arte pode funcionar também como um documento do céu de seu tempo. Mesmo assim, o estudo não encerra a discussão sobre o que foi observado e o que foi imaginado por Van Gogh.

