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Crise econômica Síria agrava vida de sírios após a queda de Assad

Após a queda de Assad, sírios enfrentam alta de preços, reajustes de combustíveis e perda de renda, com protestos recentes no país.

Por Roberto Andrade ·
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Repórter Capixaba

No mês passado, protestos tomaram praças e ruas de cidades da Síria. Manifestantes queimaram pneus, bloquearam vias e gritaram palavras de ordem contra a decisão do governo de elevar novamente o preço dos combustíveis. Foi a maior demonstração de insatisfação desde que o presidente Ahmed al-Sharaa assumiu o poder, há dois anos.

O reajuste foi apenas o mais recente de uma série de medidas que, segundo moradores, aprofundam a crise do custo de vida. Muitos sírios afirmam que a situação financeira piorou desde que rebeldes liderados por Sharaa derrubaram Bashar al-Assad, pondo fim a cinco décadas de governo da família dele e a mais de 13 anos de uma guerra civil devastadora.

Desde então, Sharaa conduz a transição do país e os esforços para reanimar uma economia destroçada por anos de má gestão, isolamento e conflito. O desafio sempre foi considerado enorme. Após a queda de Assad, porém, muitos sírios esperavam melhoras rápidas, expectativa que ainda não se concretizou.

Contas de serviços essenciais e produtos básicos ficaram mais caros. Para muitos, o aumento dos combustíveis, considerado inesperado, foi um sinal de um governo distante da realidade do país. Dias depois, em meio a convocações para novos protestos, o reajuste foi revogado.

Em um subúrbio de Damasco, a reportagem acompanhou Fatima Saleh Eid, de 50 anos, em uma feira ao ar livre. Ela trabalha como faxineira para ajudar a sustentar a família. O marido foi contratado por uma fábrica de cerâmica após um ano desempregado, situação considerada sorte em um lugar onde muitos procuram trabalho sem sucesso. “Nós sofremos muito”, disse ela.

Desde que chegou ao poder, o governo cortou subsídios de longa data como parte de um plano de austeridade. O preço do pão, alimento básico no país, aumentou dez vezes. Os combustíveis agora seguem a média internacional, o que pressiona agricultores e encarece o transporte, enquanto a conta de luz subiu várias centenas por cento para alguns consumidores.

As autoridades reajustaram salários do setor público, incluindo aposentadorias, mas o ganho tem sido anulado pela alta contínua dos preços. “Comemos com mais moderação. Não podemos mais pagar frango nem carne”, disse Fatima.

O aposentado Marwan Bashour, de 68 anos, afirmou receber cerca de US$ 90 por mês, valor equivalente ao salário mínimo do setor público. “Não é suficiente de jeito nenhum”, disse. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 90% dos sírios estavam na pobreza no ano passado. Para se manter, ele conta que pega dinheiro emprestado e vende objetos da casa, já que a ajuda de agências humanitárias foi interrompida por cortes de financiamento.

Outro aposentado, Nabil al-Remhein, de 63 anos, disse que nenhum dos quatro filhos adultos conseguiu emprego e que a família faz apenas uma refeição por dia. A conta de luz mais recente equivale a cerca de um terço da renda familiar, e ele ainda não a pagou. Para economizar, a família reduziu a iluminação e desliga a geladeira por cerca de cinco horas por dia.

Para o analista Haid Haid, colunista e pesquisador do centro de estudos Chatham House, de Londres, uma parcela significativa da população está pior do que antes da queda de Assad. Ele avalia que a crise é em parte herança do regime anterior, mas também resultado de novas políticas que aproximam o país de uma economia liberal sem considerar o impacto sobre as pessoas. O Ministério da Economia e Indústria não disponibilizou ninguém para entrevista.

Há também ganhos importantes. Sanções internacionais impostas na era Assad foram suspensas, e os Estados Unidos retiraram a Síria da lista de patrocinadores do terrorismo. Ainda assim, grandes áreas do país seguem em ruínas após uma guerra que matou meio milhão de pessoas e deslocou metade da população. Segundo o Banco Mundial, a reconstrução deve custar US$ 216 bilhões, e sem ajuda e investimento externos o país não conseguirá se reerguer.

O economista Samir Aita, que dirige o Círculo de Economistas Árabes, em Paris, afirma que a crise combina políticas e falta de gestão das expectativas. “É insustentável. Se eles não mudarem, temo o caos”, disse. Mesmo assim, muitos sírios, exaustos após anos de conflito, seguem esperançosos. O motorista de táxi Abu Mahmoud resume: “Eles herdaram o país falido, então as pessoas precisam ter paciência”.

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