Vitória, sexta-feira 30 de outubro de 2026
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Cores do sangue animal vão muito além do vermelho; há espécies com sangue azul, verde ou branco

Hemoglobina, hemocianina e outros pigmentos explicam por que alguns animais têm sangue azul, roxo, verde ou branco, além do vermelho.

Por Roberto Andrade ·
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Repórter Capixaba

Quando um nariz sangra ou um dedo é furado, o sangue humano aparece sempre em alguma tonalidade de vermelho. Mas as cores do sangue animal fogem dessa regra: há bichos cujo fluido vital é roxo, amarelo, verde e até branco. O que explica essa variedade está em proteínas e pigmentos específicos de cada espécie.

O vermelho dos vertebrados vem da hemoglobina, proteína dos glóbulos vermelhos que contém átomos de ferro. Quando esse ferro está ligado ao oxigênio, o sangue tem um tom vivo, parecido com o de uma cereja. Com menos oxigênio, ele fica mais escuro, em um vermelho-acastanhado.

Muitos animais, porém, não usam hemoglobina. Polvos, lulas e crustáceos como camarões e caranguejos contam com a hemocianina, que tem cobre em vez de ferro. Quando ligado ao oxigênio, o cobre adquire coloração azulada, e é por isso que o sangue desses animais pode parecer azul.

A hemocianina capta oxigênio com menos eficiência que a hemoglobina, mas funciona especialmente bem em águas frias, como as do fundo do mar. Estudos sugerem que ela também participa da defesa do organismo e pode ajudar na cicatrização de feridas.

Outros animais marinhos, como os braquiópodes, parecidos com moluscos, e o verme-amendoim que vive no fundo do oceano, têm sangue violeta. A cor vem da hemeritrina, proteína rica em ferro com pigmento roxo, que transporta oxigênio pelo corpo.

Já certas ascídias, animais marinhos de corpo macio e formato de batata, têm sangue amarelo-esverdeado. Ainda não há consenso sobre a causa. Uma hipótese envolve o vanádio, elemento que essas espécies concentram no sangue. Outra aponta para a alimentação: ao processar o fitoplâncton, elas produzem carotenoides, pigmentos amarelos, vermelhos ou laranjas.

O verde intenso aparece em alguns lagartos da Nova Guiné. Eles usam hemoglobina para transportar oxigênio, como os demais vertebrados, mas a decompõem em biliverdina, um pigmento verde. Enquanto a maioria dos vertebrados transforma essa substância em compostos mais opacos, esses lagartos a acumulam no sangue, e o verde chega a se sobrepor ao vermelho. Em pessoas, a mesma molécula pode dar ao corpo um tom amarelado na icterícia, em concentrações elevadas.

O caso mais curioso é o dos peixes-gelo antárticos, da família Channichthyidae. Eles são os únicos vertebrados conhecidos que não produzem hemoglobina e não têm glóbulos vermelhos. Seu sangue é branco-leitoso e translúcido. O geneticista do desenvolvimento John Postlethwait, da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos, descreve esses animais como quase fantasmagóricos.

Sem hemoglobina, esses peixes dependem do oxigênio que se dissolve diretamente no plasma. Eles também têm coração e capilares maiores que os de outros peixes antárticos, o que permite bombear um volume maior de sangue. Além disso, são predadores de tocaia: ficam parados à espera das presas, gastando menos energia e menos oxigênio.

Para viver em águas abaixo de zero, os peixes-gelo têm proteínas anticongelantes. O sal reduz o ponto de congelamento da água, e por isso os oceanos polares podem estar mais frios do que a temperatura que normalmente transformaria a água em gelo.

Um estudo recente, liderado por Postlethwait, analisou o genoma de várias espécies de peixes para entender por que os genes da hemoglobina desapareceram do DNA desses animais. Ainda não se sabe se eles perderam primeiro os glóbulos vermelhos ou a hemoglobina. Uma hipótese é que as águas do Oceano Austral eram tão ricas em oxigênio que a hemoglobina deixou de ser necessária.

Em ambientes de altitude, o desafio é a baixa disponibilidade de oxigênio. O camundongo-veado (deer mouse) pode viver a até 14 mil pés (aproximadamente 4,2 mil metros) acima do nível do mar, bem acima do ponto em que muitas pessoas começam a sentir o mal de altitude. Ele desenvolveu uma hemoglobina que se liga ao oxigênio com mais força. Beija-flores dos Andes e rãs de altitude apresentam adaptações parecidas.

Há, porém, um custo. Segundo o ecofisiologista Zachary Cheviron, da Universidade de Montana, esse camundongo tem dificuldade para liberar oxigênio nos tecidos e compensa isso com mais mitocôndrias, as estruturas que produzem energia, nas fibras musculares.

Essas descobertas também podem ajudar a saúde humana. Pesquisadores avaliam que a hemoglobina do camundongo pode inspirar terapias para doenças que reduzem a oxigenação do organismo, como a doença pulmonar obstrutiva crônica. Já os peixes-gelo podem trazer pistas para a anemia, condição que atinge quase dois bilhões de pessoas no mundo. São linhas de pesquisa em andamento, sem tratamentos prontos. Quem tem sintomas de anemia deve procurar um profissional de saúde.

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