Vitória, sábado 31 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Curiosidades

Calendário gregoriano: bula de 1582 apagou dez dias de outubro da história

A bula Inter gravissimas, de 1582, instituiu o calendário gregoriano e suprimiu dez dias de outubro para corrigir a defasagem astronômica.

Por Roberto Andrade · · Atualizado às 17h00
Compartilhe:
Repórter Capixaba

Quem consulta o calendário para planejar feriados e compromissos raramente imagina que a contagem do tempo já passou por intervenções radicais. Uma delas, ocorrida há mais de quatro séculos, fez parte da Europa católica dormir em um dia e acordar em outro, sem os dez dias que vieram antes.

Na noite de 4 de outubro de 1582, moradores da Europa católica foram dormir em uma quinta-feira e acordaram no dia seguinte já vivendo em 15 de outubro. Os dias entre essas duas datas deixaram de existir nos registros civis e religiosos, por determinação do papa.

A mudança foi autorizada pela bula papal Inter gravissimas, assinada pelo Papa Gregório XIII em 24 de fevereiro de 1582. O documento instituiu o calendário gregoriano, criado para alinhar o ano civil ao ciclo solar e corrigir uma defasagem astronômica acumulada ao longo de séculos.

Até então, a Europa seguia o calendário juliano, criado por Júlio César no ano 46 a.C. Ele partia do princípio de que a Terra levava 365 dias e seis horas para completar uma volta em torno do Sol.

Na prática, esse período é de 365 dias, cinco horas, 48 minutos e 46 segundos. A diferença de cerca de onze minutos por ano parecia insignificante no cotidiano, mas se transformava em um dia inteiro de erro a cada 128 anos.

No fim do século 16, o desvio já ultrapassava dez dias. Com isso, o início das estações climáticas estava deslocado e ciclos agrícolas tradicionais em todo o continente europeu sentiam o efeito.

O problema também tinha um peso religioso. O Concílio de Niceia, realizado no ano 325, definiu que a Páscoa deveria ocorrer no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no Hemisfério Norte. Na época do Império Romano, o equinócio de primavera caía em 21 de março, mas, com o erro juliano, passou a acontecer em 11 de março.

Para resolver a questão, uma comissão reunida na Villa Mondragone, residência papal próxima a Roma, analisou propostas do médico e astrônomo italiano Luigi Lilio. Depois da morte dele, coube ao matemático jesuíta alemão Christopher Clavius conduzir os cálculos técnicos e redigir as explicações que embasaram o decreto.

O corte de dez dias provocou apreensão imediata. Trabalhadores temiam receber salários menores por causa de um mês encurtado, e proprietários receavam perdas no recebimento de aluguéis. Para evitar tumultos, a bula previu a prorrogação proporcional de prazos de dívidas, vencimentos de contratos e tributos.

A adoção foi lenta e desigual. Estados católicos sob a coroa de Filipe II, como Portugal, Espanha e principados italianos, aplicaram o novo modelo ainda em 1582. Nas colônias da América portuguesa e espanhola, a medida chegou alguns meses depois, conforme as instruções régias desembarcavam nos portos.

Reinos protestantes e nações ortodoxas rejeitaram o decreto de imediato, vendo nele uma tentativa de domínio político do bispo de Roma. A Inglaterra e suas colônias americanas só adotaram o novo sistema em setembro de 1752, quando precisaram eliminar onze dias. A Rússia manteve o calendário juliano até o início de 1918, quando retirou 13 dias para alinhar o país à contagem global.

Hoje, o calendário gregoriano é o padrão adotado pela maior parte do mundo para organizar a vida civil. A história mostra que a forma como medimos o tempo também é fruto de decisões humanas e de ajustes feitos ao longo de séculos.

Compartilhe:

Leia também