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DNA humano antigo de 22 mil anos é recuperado de sedimento de caverna na Espanha

Pesquisadores recuperaram DNA humano antigo de sedimento da caverna El Mirón, na Espanha, mesmo sem restos mortais na camada analisada.

Por Roberto Andrade ·
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Entrada de caverna em tons quentes de laranja e marrom, com uma figura humana genérica sentada ao fundo e fios turquesa que lembram uma dupla hélice de DNA saindo do solo.
Ilustração: Repórter Capixaba

Por muito tempo, a história humana esteve registrada sobretudo em ossos e fósseis. Uma pesquisa publicada na revista Science Advances mostra que DNA humano antigo também pode ser recuperado de poeira e terra, mesmo quando não há nenhum resto mortal na camada analisada.

O material coletado na caverna El Mirón, na Espanha, pesava no máximo alguns grãos de arroz. Para obter dados úteis, a equipe precisou sequenciar a amostra 100 vezes e separar mais de um bilhão de fragmentos de DNA em busca de vestígios humanos. Também foi necessário descontar a contaminação por DNA moderno.

O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade de Viena, na Áustria. Segundo os autores, o material genético provavelmente se desprendeu da pele, dos cabelos ou do sangue de pessoas que se abrigaram na caverna há cerca de 22 mil anos, durante o período mais frio da última era glacial na Europa.

A descoberta ganha importância porque esqueletos desse período são extremamente raros. Até hoje, poucos restos humanos desse tempo e dessa cultura foram encontrados, e dois deles estão em estado muito ruim de conservação. Por isso, a técnica abre uma forma de estudar populações que não deixaram ossos.

Os dados indicam que as pessoas que ocuparam a caverna provavelmente pertenciam a um grupo de ascendência ocidental, com pele, cabelos e olhos escuros. O material parece vir de indivíduos diferentes, com predominância de homens em relação às mulheres.

Para entender a diferença entre os tipos de material analisados, vale lembrar que o DNA mitocondrial é transmitido apenas pela linhagem materna. Já o DNA nuclear vem dos dois pais e traz mais informações sobre a ascendência de cada indivíduo, o que permitiu uma leitura mais detalhada da população.

Ao comparar o DNA nuclear de El Mirón com restos de uma mulher que viveu na França há cerca de 31 mil anos e com um dente do norte da Espanha datado de aproximadamente 25 mil anos, os pesquisadores encontraram sinais de ancestralidade oriental nesses dois indivíduos. Isso sugere que populações do leste e do oeste europeu se misturavam antes do Último Máximo Glacial. Já a amostra da caverna mostra apenas ascendência ocidental.

Segundo os autores, os resultados não apontam para uma grande substituição de populações no sudoeste europeu entre 30 mil e 20 mil anos atrás. A região parece ter mantido certa continuidade genética nesse intervalo.

A técnica já vinha produzindo outros achados. Em 2021, pesquisadores recuperaram DNA mitocondrial do piso de barro de uma caverna na Geórgia, que pertenceu a uma mulher que viveu há 25 mil anos. Em 2025, a mesma caverna espanhola de El Mirón revelou DNA humano e animal em amostras datadas entre 46 mil e 21 mil anos, com indícios de que pessoas e animais ocuparam o local em momentos diferentes.

Uma revisão publicada em 2025 aponta que essa abordagem pode ajudar a entender a dispersão humana, as interações entre caçadores-coletores, o início da agricultura, a domesticação de animais e a evolução de doenças. Ainda assim, os desafios técnicos precisam ser resolvidos, e as amostras disponíveis para essa época e região continuam escassas. Os pesquisadores defendem a integração de mais genomas de esqueletos com esses dados ambientais, o que deve ampliar o conhecimento sobre as populações do Paleolítico Superior na Europa.

Na prática, a terra de uma caverna pode guardar pistas sobre quem passou por ali, mesmo quando não restou nenhum osso.

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