Dinossauro comedor de frutas: fóssil raro revela nova espécie no fim do Cretáceo
Pesquisadores descrevem o Infernogallus jamesi, dinossauro do fim do Cretáceo que mastigava frutas, algo inédito entre os dinossauros conhecidos até agora.
Paleontólogos identificaram uma nova espécie de dinossauro comedor de frutas, batizada de Infernogallus jamesi, que mastigava alimentos macios e, segundo os pesquisadores, é o primeiro dinossauro conhecido com essa dieta específica. O estudo foi publicado na revista Nature Communications.
A pesquisa foi liderada por Gregory Funston, professor assistente do Departamento de Ciências Anatômicas da Universidade Stony Brook, com participação de especialistas do Museu Real de Ontário (ROM) e do Serviço Geológico de Dakota do Norte. A equipe analisou os músculos da mastigação do animal e encontrou um arranjo raro, visto hoje apenas em alguns papagaios que se alimentam de frutas.
O nome significa «galinha do inferno» e foi dado porque os fósseis foram encontrados na Formação Hell Creek, nos Estados Unidos, região que abrange Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Wyoming. Ali, a espécie viveu ao lado do T. rex e do triceratops, no fim do período Cretáceo.
Com cerca de 12 kg e tamanho aproximado de um peru, o animal pertencia ao grupo dos caenagnatídeos, dinossauros com penas e sem dentes. Mesmo na fase adulta, ele estava entre os menores integrantes desse grupo.
Chama a atenção que essas espécies tenham evoluído a partir de linhagens carnívoras. A análise da mecânica da mastigação mostrou que o crânio era especializado em triturar frutas de caroço, removendo a polpa da semente principal. Até então, os paleontólogos tinham dificuldade em estabelecer ligações claras entre a diversidade de dinossauros e a evolução das plantas com flores.
Segundo os pesquisadores, o céu da boca do animal tinha ossos que se curvavam para dentro, o que fazia certos músculos ficarem voltados para frente e para trás, e não para cima e para baixo. Isso permitia um movimento de mastigação com o bico deslizando, semelhante ao dos humanos, em vez da mordida rígida e vertical do T. rex. Esse arranjo muscular é raro no reino animal e aparece em alguns mamíferos e em aves que comem frutas, como o papagaio-vulturino (Psittrichas).
Os autores concluem que essas adaptações provavelmente surgiram pelo mesmo motivo: processar alimentos macios na boca, e não no estômago. «É bastante raro que animais se especializem em uma dieta de frutas e, quando isso acontece, vêm adaptações notáveis», afirma Thomas Dudgeon, pesquisador de pós-doutorado no ROM e um dos coautores do artigo.
Os fósseis incluem um crânio quase completo e articulado, além de parte do esqueleto, e estão em exposição no Museu Real de Ontário. Para David Evans, curador-chefe de história natural da instituição, restos completos de pequenos dinossauros são muito raros no registro fóssil, o que torna o achado especialmente valioso.
O estudo também sugere que os dinossauros podem ter influenciado a evolução das plantas com flores como dispersores de sementes, papel que hoje cabe a aves, répteis e pequenos mamíferos. Ao mesmo tempo, a existência de espécies com novos papéis ecológicos no fim do Cretáceo indica que a diversidade desses animais pode ser maior do que se imaginava, o que alimenta o debate sobre um possível declínio antes da extinção.



