Vitória, sexta-feira 30 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Curiosidades

Cães de Chernobyl têm diferenças genéticas e pesquisa aponta possível explicação

Cães que vivem perto da antiga usina de Chernobyl têm diferenças genéticas. Nova pesquisa analisa seleção natural e deriva genética como explicações.

Por Roberto Andrade ·
Compartilhe:
Silhueta escura de um cão sentado sobre um campo verde ao entardecer, com um símbolo laranja de radiação à esquerda e uma dupla hélice de DNA colorida à direita, representando as pesquisas genéticas.
Ilustração: Repórter Capixaba

Os cães de Chernobyl apresentam diferenças genéticas em relação a animais que vivem mais longe da antiga usina nuclear, e uma nova pesquisa começa a indicar por que isso acontece. O estudo, publicado na revista Genes, foi liderado pela geneticista populacional Megan Dillon, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

A explosão na usina, em 26 de abril de 1986, espalhou radiação e levou as autoridades soviéticas a evacuar a região. Criou-se então uma zona de exclusão de cerca de 2.600 quilômetros quadrados, onde a presença humana deixou de existir e a fauna passou a prosperar com o tempo.

Muitos moradores tiveram de deixar seus animais de estimação para trás. Depois, equipes chamadas de liquidadores foram enviadas para eliminar os bichos que restaram, incluindo rebanhos da área contaminada. Ainda não se sabe quantos animais escaparam, mas cães suficientes sobreviveram e formaram populações estáveis na zona, que hoje somam várias centenas de exemplares.

Esses cães já passaram por mais de 30 gerações desde o desastre. Por isso, eles são considerados um modelo valioso para entender como décadas de contaminação podem afetar seres vivos e a própria evolução deles.

Um estudo de 2023, feito pela mesma equipe, identificou que os cães que viviam perto da usina eram geneticamente distintos dos que estavam mais distantes. Na época, uma hipótese era que essas variações tivessem surgido por mutações causadas pela radiação que ainda permanece no local. Uma pesquisa de 2024, porém, não encontrou evidências de que mutações explicassem essas diferenças, e os cientistas seguiram investigando.

No trabalho mais recente, os pesquisadores analisaram o sequenciamento do genoma completo de 106 cães, coletados entre 2018 e 2019. A amostra incluiu animais da própria usina e da cidade de Chornobyl, grafia ucraniana de Chernobyl, situada a cerca de 16 quilômetros de distância.

Para explicar as diferenças, há duas possibilidades principais. A primeira é a seleção natural, em que variantes genéticas que aumentam as chances de sobrevivência e reprodução em determinado ambiente se tornam mais comuns. A segunda é a deriva genética, em que mudanças ocorrem ao acaso, sem trazer necessariamente qualquer vantagem para o organismo.

No caso dos cães que vivem perto da usina, o acaso parece não explicar sozinho o padrão encontrado. Os cientistas identificaram alterações concentradas em regiões do genoma próximas a genes ligados ao câncer, à função e manutenção celular, a doenças infecciosas e à resposta imunológica.

Dillon ressalta que ainda não é possível afirmar com certeza que se trata de seleção natural, mas os sinais genômicos são compatíveis com esse processo. Segundo ela, esses genes participam de vias biológicas que poderiam ajudar os animais a lidar com substâncias tóxicas presentes no ambiente.

A hipótese mais plausível é que, logo após o desastre, alguns cães já tivessem vantagens genéticas que os protegiam contra o câncer, davam respostas imunes mais eficientes ou resistiam melhor à exposição a toxinas. Ao longo das gerações, essas características teriam se espalhado pela população. O geneticista Matthew Breen, também da Universidade Estadual da Carolina do Norte, observa que é natural supor que o ambiente tóxico tenha deixado alguma consequência, mas os dados sugerem que os sobreviventes talvez já tivessem uma diversidade genética que lhes deu maior capacidade de adaptação, sem necessidade de grandes mudanças no genoma.

Os próprios pesquisadores reconhecem que a questão ainda está em aberto. Caberá a estudos futuros verificar se essas variações realmente foram moldadas pela seleção natural e o que elas revelam sobre os efeitos de longo prazo da radiação nos seres vivos.

Compartilhe:

Leia também