Queda do Ibovespa passa de 18% na semana após reeleição de Lula
O Ibovespa acumulou queda de mais de 18% na semana após a reeleição de Lula, com dólar em alta e bolsa pressionada por dúvidas fiscais.
A queda do Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, chegou a mais de 18% nesta semana. Na sexta-feira (30), o índice fechou aos 167.922 pontos, depois de cinco pregões consecutivos de baixa.
O movimento aconteceu logo após o segundo turno das eleições, vencido pelo presidente Lula (PT). O mercado considerava praticamente certa a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), e o resultado sacudiu o mercado financeiro, com forte alta do dólar.
Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, a semana está entre as piores da história recente da bolsa. Ela ocupa a quinta posição desde o Plano Real, atrás apenas de momentos como a semana de 20 de março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, quando o índice despencou 18,88%.
A maioria das maiores quedas semanais está ligada a crises internacionais. Em 1997, a crise asiática, que começou na Tailândia, fez o índice cair 22,17% na semana encerrada em 31 de outubro. Em 2008, o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos e a falência do banco Lehman Brothers agravaram a crise financeira global, e a bolsa brasileira recuou 20,01% na semana encerrada em 10 de outubro.
Os atentados às Torres Gêmeas, em 2001, também provocaram movimento semelhante. Na semana encerrada em 14 de setembro, o Ibovespa caiu 18,12% em meio ao temor de uma resposta militar americana.
O impacto também atingiu as empresas. A B3, bolsa de valores brasileira, registrou perda de R$ 963 bilhões em valor de mercado das companhias listadas nesta semana, após o segundo turno.
No câmbio, a pressão foi igualmente forte. Considerando a Ptax, taxa de referência calculada pelo Banco Central, o dólar subiu 7,61% na semana. Foi a maior alta semanal desde setembro de 2011, quando a crise da dívida na Europa aumentava as incertezas sobre a economia global.
A reação foi puxada sobretudo por investidores estrangeiros, que haviam apostado na bolsa durante o período eleitoral. Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, parte desse dinheiro começou a deixar o mercado antes mesmo do resultado, enquanto pessoas físicas compraram ações depois da eleição.
A aposta anterior havia impulsionado a bolsa. Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o Ibovespa saiu de 186 mil pontos no fim de setembro e chegou a superar 205 mil pontos na sexta-feira anterior ao segundo turno.
Por trás dessa reação está a preocupação com as contas públicas. A dívida bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto, o equivalente a R$ 11,1 trilhões, ou cerca de 10 meses de tudo o que o país produz.
Quando investidores duvidam da capacidade do governo de controlar gastos e estabilizar a dívida, passam a exigir juros mais altos. Isso encarece o crédito, pesa sobre as empresas e torna a renda fixa mais atraente do que a bolsa.
Luiz Dornelas, CEO do Grupo Ludo, avalia que a queda reflete uma revisão de expectativas e maior cautela com a economia, especialmente com as contas públicas, mas não há uma causa única. Já Emerson Vieira De Farias Junior, gestor da Convexa Investimentos, afirma que o problema não é falta de dólar, já que o Banco Central tem reservas robustas, e sim o risco fiscal.
Para ele, o mercado espera dois sinais claros do governo: quem será o ministro da Fazenda e qual plano fiscal crível será adotado para ancorar as expectativas sobre a dívida.
Nos próximos dias, a expectativa é de oscilações fortes. No radar estão os sinais do governo sobre a equipe econômica e as contas públicas, além da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros.
A decisão do Copom está marcada para quarta-feira (4). Antes da eleição, a aposta era de corte de 0,25 ponto percentual na Selic, que está em 13,75%, mas agora o mercado vê maior chance de manutenção da taxa.
Dornelas considera possível uma recuperação parcial, com investidores voltando às compras após a forte desvalorização, mas diz que altas pontuais não significam necessariamente uma mudança duradoura de tendência. Trevisan concorda que um repique técnico é possível, mas ressalta que repique não é recuperação: para a bolsa voltar de forma consistente aos níveis de setembro, seria preciso um compromisso fiscal crível.
Marcos Praça também chama atenção para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e para as tensões no Oriente Médio e a alta do petróleo, fatores que podem continuar pressionando os mercados mesmo após o impacto imediato da eleição brasileira.



