Vitória, sexta-feira 30 de outubro de 2026
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Ave do Cretáceo ganha reconstrução em tamanho real com fósseis e impressão 3D

Reconstrução em tamanho real do Concornis lacustris combina fósseis, impressão 3D e pintura para mostrar como era uma ave que viveu há 125 milhões de anos.

Por Roberto Andrade ·
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Repórter Capixaba

Uma ave do Cretáceo que viveu há cerca de 125 milhões de anos ganhou uma reconstrução em tamanho real, produzida com fósseis, modelagem digital, impressão 3D e técnicas tradicionais de escultura. A espécie, chamada Concornis lacustris, habitava a região que hoje corresponde à Europa, e sua aparência foi representada por pesquisadores a partir de evidências paleontológicas.

À primeira vista, pode parecer improvável retratar com tanto detalhe um animal tão antigo. Como os fósseis raramente preservam o corpo inteiro, porém, reconstruir uma espécie extinta funciona como montar um quebra-cabeça, em que cada osso e cada comparação com animais parentes faz diferença.

O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Víctor Peco e Sergio Nebreda, com base em materiais fósseis e em referências anatômicas de outras aves. Segundo o estudo, o animal não voltou à vida, mas a escultura permite visualizar como sua aparência poderia ter sido.

O Concornis lacustris pertencia ao grupo dos enantiornites, aves primitivas que se desenvolveram durante o Cretáceo. Esse grupo desapareceu na extinção em massa de aproximadamente 66 milhões de anos atrás, o mesmo evento que eliminou os dinossauros não avianos.

O principal fóssil conhecido da espécie foi encontrado no sítio paleontológico de Las Hoyas, na província de Cuenca, na Espanha. Partes importantes do esqueleto, incluindo o crânio, não foram preservadas, o que obrigou os cientistas a buscar outras fontes de informação.

Entre as referências usadas estavam um crânio bem preservado encontrado no Brasil e outro fóssil descoberto em Las Hoyas. O material brasileiro corresponde à ave pré-histórica Navaornis hestiae, cujas características anatômicas ajudam a entender a evolução das aves. A comparação permitiu montar uma representação fundamentada da estrutura óssea do Concornis, combinando os elementos conhecidos da espécie com dados de animais relacionados.

A reconstrução começou em ambiente digital, com a criação de um modelo no programa Blender. Fotografias e desenhos científicos dos fósseis serviram de base para a estrutura, que depois foi produzida em uma impressora 3D.

Sobre essa peça, foram aplicadas camadas de massa epóxi moldadas manualmente e um acabamento com tintas a óleo. Para representar as penas, os responsáveis usaram filamentos plásticos finos e componentes impressos separadamente, além de referências de fósseis encontrados na China e na Espanha.

Como o fóssil original não preservou pigmentos, a coloração precisou ser estimada a partir de aves aparentadas. Os pesquisadores estudaram a trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria), uma espécie atual, para entender a disposição das penas.

A escultura apresenta dorso e asas marrom-escuros, região inferior mais clara e reflexos azulados e esverdeados na cabeça. Essas tonalidades são uma hipótese de reconstrução, e não uma confirmação das cores que a ave tinha em vida.

A ave reconstruída tem cerca de 13 centímetros de comprimento corporal e aproximadamente 30 centímetros de envergadura, medida entre as pontas das asas abertas. Ou seja, mesmo convivendo com dinossauros, o Concornis era um animal de pequeno porte.

Além da anatomia, a equipe procurou representar um possível comportamento. A escultura mostra a ave pousando sobre um galho de Frenelopsis, uma conífera que fazia parte do ambiente de Las Hoyas no Cretáceo, com as asas abertas e as penas voltadas para a frente, simulando a desaceleração antes do contato com o galho.

O estudo foi publicado na revista científica Earth History and Biodiversity e mostra como ferramentas digitais e técnicas de fabricação podem ser combinadas ao conhecimento paleontológico para representar espécies extintas. A reconstrução não comprova todos os detalhes da aparência da ave, mas reúne as evidências disponíveis para oferecer uma interpretação visual de como ela poderia ter sido.

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