Vidro romano que muda de cor é replicado por pesquisadores da Universidade de Sheffield
Cientistas da Universidade de Sheffield reproduziram o vidro romano que muda de cor, inspirado na Taça de Licurgo, com nanopartículas de prata e ouro.
Os romanos foram engenhosos: além de aquedutos que levavam água doce às cidades, desenvolveram um concreto capaz de se regenerar, que ajudou suas estruturas a resistir por séculos. Para alguns cientistas atuais, porém, uma de suas maiores conquistas foi um vidro romano que muda de cor, passando de verde-jade para vermelho-sangue conforme a iluminação.
Há décadas, o objeto mais estudado desse tipo é a Taça de Licurgo, peça romana de cerca de 1.600 anos que está no Museu Britânico, em Londres, desde 1958. Sob luz normal, ela parece opaca e verde. Quando a luz é direcionada através do vidro, ela adquire um tom avermelhado.
Feita no século IV, a taça traz cenas mitológicas da Ilíada, o poema épico de Homero ambientado na Guerra de Troia. Nelas, Dioniso, deus do vinho, castiga Licurgo, rei trácio que se opunha ao seu culto, prendendo-o em videiras.
Agora, pesquisadores afirmam ter descoberto como reproduzir esse efeito óptico. Lisa Hollands, especialista técnica em vidro da Universidade de Sheffield que liderou o trabalho, descreve o resultado com entusiasmo: “Para mim, é mágica”.
A explicação está em nanopartículas de prata e ouro incorporadas ao vidro. Elas são bem menores que o comprimento de onda da luz visível e, em determinadas condições, bloqueiam alguns tons enquanto deixam outros passar. Quando a luz atravessa o material, as partículas barram o azul e o verde e permitem a passagem de vermelhos e laranjas. Quando a luz reflete na superfície, elas espalham a luz e produzem o verde opaco.
Embora os cientistas já compreendessem o princípio, reproduzir o efeito foi difícil e exigiu muitas tentativas. Hollands se uniu à arqueóloga Caroline Jackson, também da Universidade de Sheffield e especialista em vidro romano, para estudar os materiais. Com matérias-primas acessíveis aos artesãos da época, ela testou diferentes tipos de forno, níveis de oxigênio e ingredientes, incluindo açúcar, até encontrar uma receita que repetisse o resultado.
A cor se mostrou muito sensível a pequenas variações no forno. Segundo Ian Freestone, pesquisador emérito de materiais arqueológicos da University College London, a posição da peça alterava o tom final. Isso sugere que os romanos tinham pouco controle sobre o resultado. Para ele, com o vidro de Licurgo, os artesãos “acertaram em cheio”.
Freestone também lembra que versões desse vidro já haviam sido criadas nos anos 1960, mas o novo material é, em suas palavras, mais ambicioso e preciso, com cores mais próximas às da taça original.
Na sequência, o artista britânico Elliot Walker produziu uma escultura com o vidro recriado. A peça se inspira no mito de Licurgo e na escultura romana Atlas Farnese, do século II, em que o titã sustenta um globo celeste. Na obra de Walker, o globo foi trocado por uma taça, em referência ao objeto antigo. A peça será exibida no Festival of the Mind, da universidade, e depois ficará em exposição permanente no Turner Museum of Glass.
Apesar de o material ter uso principalmente decorativo, a pesquisa pode ter outras aplicações, como o desenvolvimento de novos materiais fotônicos e o aprimoramento da vitrificação, processo usado para armazenar com segurança resíduos radioativos em vidro. Ao reproduzir uma técnica de quase dois mil anos, os cientistas também ganham uma nova forma de entender como os artesãos antigos lidavam com um material tão sensível.



