Sanções contra a Rússia são suspensas por Trump em meio a crise com Zelensky
Trump suspende por 60 dias parte das sanções contra a Rússia, decisão criticada por parlamentares dos dois partidos e por Kiev.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu a aplicação de diversas sanções contra a Rússia dois dias antes de elas entrarem em vigor, em um momento de crescente atrito com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. A decisão foi tomada por meio de um decreto executivo assinado na noite de sexta-feira (16).
As medidas haviam sido aprovadas pelo Congresso americano e sancionadas por Trump em setembro. Segundo o governo, a suspensão de parte delas atende ao interesse nacional dos Estados Unidos. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que a pausa será de 60 dias, para que o governo analise os possíveis impactos sobre a economia americana e global.
A lei dava a Trump amplos poderes para aplicar tarifas de até 100% sobre importações vindas dos cinco maiores compradores de petróleo e gás russos, principalmente China e Índia. O texto também atingia altas autoridades russas, incluindo Vladimir Putin, instituições financeiras e a chamada “frota fantasma” de navios usados para contornar embargos.
Zelensky classificou como lamentável a decisão de os Estados Unidos desconsiderarem completamente as sanções. Segundo ele, as medidas “poderiam ter ajudado enormemente” e deveriam pressionar a Rússia a encerrar a guerra. Já o enviado russo Kirill Dmitriev chamou o decreto de “um momento importante e verdadeiramente histórico”, afirmando que as sanções causariam “sérios danos” aos mercados americano e global.
A suspensão provocou críticas de parlamentares dos dois principais partidos. Entre os democratas, o deputado Don Beyer, da Virgínia, acusou Trump de capitular diante de Moscou e de virar as costas para Kiev e Zelensky. Entre os republicanos, o senador Ted Cruz, aliado do presidente, chamou a medida de um erro, e John Cornyn a considerou “imprudente”. Thom Tillis, da Carolina do Norte, disse que a decisão é “além de irresponsável”. O deputado Don Bacon, de Nebraska, indicou que parlamentares americanos devem passar a resistir ao financiamento da agenda do presidente.
O clima entre Washington e Kiev já vinha desgastado desde a semana anterior, quando os Estados Unidos fecharam um acordo polêmico para importar diesel russo. Zelensky e aliados europeus criticaram a medida, que tinha como objetivo reduzir os preços dos combustíveis americanos, em alta por causa da guerra no Irã, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. Depois, Trump afirmou que Rússia e Ucrânia haviam concordado com um “cessar-fogo energético”, mas os ataques entre os dois países à infraestrutura de energia continuaram.
Na noite anterior à decisão, Zelensky disse que a Rússia atacou 15 instalações de energia ucranianas, provocando cortes de luz em várias regiões. “A Rússia está tentando provocar um apagão na Ucrânia, logo antes do inverno”, afirmou. Segundo as autoridades ucranianas, pelo menos nove pessoas morreram e cerca de 60 ficaram feridas em ataques russos desde sexta-feira. Entre as vítimas está um motorista de ambulância, morto em Kherson, cidade onde outras 20 pessoas ficaram feridas.
Há também uma disputa sobre o sistema de internet por satélite Starlink, usado pela Ucrânia. Na semana passada, a velocidade dos drones foi restringida sem aviso, o que, segundo Kiev, afetou missões no campo de batalha e reduziu sua capacidade de defesa. Autoridades americanas atribuíram o problema a questões técnicas, mas Zelensky afirmou que testes feitos em território europeu não identificaram essas falhas. Trump negou ter desacelerado a rede de propósito e também negou que os Estados Unidos tenham suspendido o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia.
Zelensky afirmou no sábado (17) acreditar que o governo americano poderá levantar novas sanções contra a Rússia. A tensão aumentou depois que Trump classificou como uma “vergonha” os ataques ucranianos a refinarias russas, retomados após três dias de novos ataques russos. Zelensky respondeu que apenas defende os interesses da Ucrânia.


