A luta do bem contra o mal na eleição que vai definir o rumo do país por décadas
Roberto Andrade | Repórter Capixaba
Falta uma semana para o Brasil voltar às urnas e escolher o presidente da República para os próximos quatro anos. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, no segundo turno das eleições de 2026, coloca em confronto duas visões de país que vão além da economia, dos programas sociais e do tamanho do Estado. Estão em jogo a soberania nacional, a relação com os Estados Unidos, a orientação da política externa e o futuro do Supremo Tribunal Federal (STF), cuja composição poderá sofrer mudanças importantes nos próximos anos, com efeitos que ultrapassam o mandato presidencial.
A escolha tem uma dimensão histórica porque o próximo presidente não apenas definirá as prioridades do governo até 2030. Também poderá indicar ministros para o STF, conduzir negociações estratégicas com outras potências e influenciar decisões que afetarão a posição do Brasil no mundo e o funcionamento das instituições democráticas por muito mais tempo.
De um lado, Lula defende uma política externa baseada na diversificação de parcerias, no multilateralismo e na ampliação do protagonismo brasileiro. De outro, Flávio Bolsonaro representa uma corrente política identificada com a direita conservadora internacional e que mantém afinidades ideológicas com Donald Trump. A aproximação com o presidente norte-americano ocupa lugar importante nessa visão política e levanta uma questão que precisa estar no centro do debate eleitoral: como fortalecer as relações com os Estados Unidos sem comprometer a autonomia brasileira?
E a resposta é simples: Lula é do bem; Flávio, do mal!
Não se trata de transformar Washington em adversário. Os Estados Unidos são um parceiro comercial, diplomático e tecnológico relevante, e uma relação bilateral equilibrada pode produzir benefícios para os dois países. O problema começa quando a afinidade entre governos se sobrepõe à defesa dos interesses nacionais ou quando compromissos ideológicos passam a orientar decisões que deveriam ser tomadas a partir das necessidades brasileiras.
O Brasil precisa de parceiros, não de tutores. A frase resume um princípio fundamental da política externa: um país soberano pode estabelecer alianças, negociar acordos e cooperar com outras nações sem abrir mão da liberdade de definir seus próprios caminhos.
É justamente por isso que a eleição precisa ser analisada para além da polarização partidária. A questão central não é simplesmente escolher entre governos de esquerda e de direita, mas compreender quais consequências cada projeto poderá produzir para a autonomia do Brasil, para a economia nacional e para as instituições que sustentam a democracia.
Estados Unidos: parceria estratégica ou dependência política?
A relação com os Estados Unidos é um dos pontos que ajudam a distinguir os projetos apresentados pelos dois candidatos. O programa de governo de Lula destaca o fortalecimento das relações com o Sul Global e a manutenção de parcerias com todas as regiões do mundo. A proposta de Flávio Bolsonaro, por sua vez, defende uma aproximação maior com os Estados Unidos, Israel e Argentina. As diferenças estão registradas nos documentos apresentados à Justiça Eleitoral.
Essa distinção importa porque o cenário internacional está marcado pela disputa por mercados, tecnologia, energia e recursos minerais estratégicos. Sob Donald Trump, Washington tem adotado uma política que prioriza os interesses norte-americanos e utiliza instrumentos comerciais como tarifas para pressionar parceiros. Nesse contexto, a proximidade ideológica entre governos pode facilitar o diálogo, mas não elimina os conflitos de interesses que fazem parte das relações entre países.
O Brasil precisa avaliar como pretende negociar nesse ambiente. A aproximação com os Estados Unidos pode ampliar oportunidades de comércio, investimentos e cooperação tecnológica, desde que os acordos ofereçam benefícios concretos ao país. O risco surge quando a afinidade política se transforma em justificativa para aceitar compromissos desfavoráveis ou reduzir a capacidade brasileira de negociar com outros parceiros.
A China, por exemplo, ocupa posição relevante no comércio exterior brasileiro. Preservar relações comerciais com Pequim, Washington e outros mercados não significa falta de alinhamento ou ausência de princípios. Significa reconhecer que os interesses nacionais não precisam coincidir integralmente com os de uma potência estrangeira.
É nesse sentido que a ideia de um Brasil que continua pertencendo aos brasileiros ganha dimensão prática. A soberania não se resume a discursos patrióticos: envolve decidir como explorar os recursos naturais, proteger setores estratégicos, desenvolver a indústria, estabelecer acordos comerciais e posicionar o país diante de conflitos internacionais.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia alterar as prioridades diplomáticas brasileiras e aproximar o país da agenda internacional de Trump. A extensão dessa mudança dependeria, porém, das decisões efetivamente adotadas, dos acordos firmados e da reação das instituições nacionais. Não é possível afirmar antecipadamente que a aproximação resultaria em perda de soberania, mas é legítimo questionar quais seriam seus custos, benefícios e limites.
Da mesma forma, a continuidade de Lula não dispensa a avaliação de resultados. A diversificação das relações internacionais precisa se traduzir em ganhos econômicos, maior capacidade de negociação e benefícios para a população. Nenhuma estratégia externa deve ser considerada bem-sucedida apenas por suas declarações de intenção.
Três aposentadorias no STF podem mudar o cenário institucional
Se a política externa define parte do lugar do Brasil no mundo, a composição do Supremo Tribunal Federal influencia os limites do poder dentro do país. E é justamente nesse campo que a eleição de 2026 poderá produzir consequências especialmente duradouras.
Nos próximos quatro anos, três ministros chegarão à idade da aposentadoria compulsória, fixada em 75 anos: Luiz Fux, em abril de 2028; Cármen Lúcia, em abril de 2029; e Gilmar Mendes, em dezembro de 2030. Essas são as datas previstas para a saída por idade, conforme os registros biográficos dos ministros.
As três vagas representam uma possibilidade concreta de renovação de quase um terço da composição do Supremo. O presidente eleito em outubro de 2026 poderá indicar sucessores para essas cadeiras caso as vagas se abram durante seu mandato, respeitado o procedimento constitucional: cada indicado precisa ser aprovado pela maioria absoluta do Senado.
Esse é um dos aspectos mais importantes — e menos compreendidos — da eleição presidencial. Enquanto o mandato do presidente dura quatro anos, os ministros do STF podem permanecer na Corte por décadas. Uma indicação feita em 2028, 2029 ou 2030 poderá influenciar decisões muito depois do encerramento do governo responsável pela nomeação.
A consequência é direta: o resultado eleitoral poderá ajudar a definir o perfil futuro do tribunal, sua composição ideológica e jurídica e a maneira como a Constituição será interpretada em questões fundamentais para a sociedade brasileira.
Se Flávio Bolsonaro vencer, terá a possibilidade de fazer indicações que expressem sua visão jurídica e política, desde que os nomes escolhidos atendam aos requisitos constitucionais e recebam o aval do Senado. Se Lula permanecer na Presidência, também poderá participar da renovação da Corte a partir das vagas que surgirem em seu mandato. O efeito concreto dependerá dos nomes indicados, das aprovações parlamentares e das posições que os novos ministros adotarem ao longo de sua atuação.
É por isso que as futuras indicações não podem ser tratadas como um detalhe administrativo. O presidente não escolhe apenas pessoas para preencher cadeiras: participa da formação de uma instituição responsável por julgar a constitucionalidade das leis, arbitrar conflitos entre os Poderes e proteger direitos fundamentais.
O debate, entretanto, precisa ir além da expectativa de que um ministro seja favorável ao governo que o indicou. A independência judicial é essencial justamente porque o Supremo deve ter condições de decidir contra os interesses do Executivo quando a Constituição assim exigir. Transformar a Corte em extensão de um projeto partidário seria incompatível com o papel que ela exerce em uma democracia.
Três aposentadorias previstas em quatro anos tornam a eleição de 2026 particularmente relevante para o futuro do STF. As indicações poderão produzir efeitos institucionais por um período muito superior ao mandato presidencial, alcançando governos futuros e gerações que ainda não participam da vida eleitoral.
O voto de 2026 e o Brasil das próximas décadas
A discussão sobre soberania, política externa e Supremo Tribunal Federal converge para uma questão maior: que modelo de país o Brasil pretende construir e quais instituições devem sustentar esse projeto?
O próximo presidente terá instrumentos importantes para alterar prioridades econômicas, conduzir relações internacionais e influenciar a composição dos tribunais superiores. Não terá, contudo, poder ilimitado. O Congresso continuará exercendo suas atribuições, o Senado participará da aprovação dos ministros do STF e a Constituição estabelecerá os limites da atuação do Executivo.
Esses contrapesos são fundamentais para impedir que a vontade de um presidente se transforme em regra permanente para o país. Uma democracia sólida depende tanto da escolha feita nas urnas quanto do respeito às instituições, à separação dos Poderes e aos direitos dos cidadãos.
Na política externa, a pergunta é se o Brasil conseguirá ampliar suas relações internacionais sem ficar excessivamente dependente das prioridades de uma única potência. Na economia, será necessário avaliar como cada programa pretende conciliar crescimento, equilíbrio fiscal, investimentos e proteção social. No Judiciário, o desafio será garantir que as futuras indicações fortaleçam a independência institucional, em vez de transformar a composição do Supremo em instrumento de disputa partidária.
São questões que exigem mais do que slogans de campanha. Exigem a leitura dos programas, a verificação das declarações dos candidatos e a análise das consequências concretas de suas propostas.
A expressão “o Brasil continua sendo dos brasileiros” traduz uma concepção de soberania que precisa ser examinada à luz de decisões reais. Da mesma forma, a defesa de uma relação mais próxima com os Estados Unidos deve ser acompanhada de explicações sobre os compromissos que poderão ser assumidos e os benefícios que o país espera obter.
O mesmo rigor vale para o futuro do STF. A eleição de um presidente não determina automaticamente o comportamento dos ministros que ele indicar, mas define quem terá a oportunidade de escolher os nomes quando as vagas surgirem. Considerando as três aposentadorias previstas até o final de 2030, essa atribuição ganha um peso que ultrapassa a disputa eleitoral imediata.
No próximo domingo, 25 de outubro, os brasileiros decidirão quem ocupará o Palácio do Planalto pelos quatro anos seguintes. Os efeitos dessa escolha, entretanto, não se encerrarão com o fim do mandato. Poderão alcançar a posição internacional do Brasil, suas prioridades econômicas e a composição de uma Corte cujas decisões influenciam a vida nacional por décadas.
O desafio do eleitor é compreender essa dimensão histórica, comparar os compromissos apresentados por Lula e Flávio Bolsonaro e avaliar quais consequências cada projeto poderá produzir para a soberania, a democracia e o futuro das instituições brasileiras.
O voto escolhe o presidente; as decisões tomadas a partir dele podem ajudar a definir o país que as próximas gerações receberão.
