Senadoras eleitas: como casais de políticos levaram primeiras-damas novatas ao Senado
Sete das 12 senadoras eleitas têm vínculos familiares com políticos; entre as estreantes, esposas de governadores e ex-presidentes ganharam espaço no Senado.
Entre as senadoras eleitas neste ano, quatro são estreantes na política e chegam ao Senado em 2027 casadas com nomes de peso, entre eles governadores eleitos, um ex-presidente e um ex-governador. Em Alagoas e no Amapá, Marina JHC (PSDB) e Rayssa Furlan (Podemos) ocuparão as vagas de Renan Calheiros (MDB) e Randolfe Rodrigues (PT), que não foram eleitos nesta disputa.
Os maridos de Marina e Rayssa são João Henrique Caldas (PSDB) e Dr. Furlan (PSD), eleitos governadores de Alagoas e do Amapá no primeiro turno. Marina é nora do ex-deputado João Caldas, e a primeira suplente na chapa é a sogra dela, Dra. Eudócia. Rayssa, dermatologista de 39 anos, foi secretária municipal de Mobilização e Participação Popular na gestão do marido em Macapá, que foi reeleito prefeito em 2024 com 85% dos votos válidos no primeiro turno.
Completam o grupo de estreantes Gracinha Caiado (União Brasil-GO), de 67 anos, esposa de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás e derrotado no primeiro turno na disputa presidencial, e Michelle Bolsonaro (PL-DF), casada com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Gracinha atuou no governo do marido como presidente de honra da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), entidade com contratos com o estado, e participou da criação do programa Goiás Social.
Ao todo, sete das 12 senadoras eleitas têm vínculos familiares com políticos que ocupam ou ocuparam cargos no Executivo de primeiro escalão, como prefeito, governador ou presidente. Em 2018, apenas duas das sete senadoras eleitas tinham esse perfil. Segundo levantamento do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM), o percentual subiu de 28,6% para 58,3%, e um terço das senadoras são ex-primeiras-damas novatas em cargos eletivos.
A cientista política Mayra Goulart, coordenadora do LAPPCOM, explica que a eleição para o Senado é majoritária: ganha quem tem mais votos, diferentemente da Câmara, em que as vagas são distribuídas conforme o desempenho dos partidos. Para ela, a disputa no estado costuma girar em torno do apoio ou da oposição ao governador, e a candidatura exige capacidade de circular por diferentes regiões, o que favorece quem se associa a um nome forte local.
Na avaliação da pesquisadora, a presença das esposas relativiza a ideia de renovação: « Na eleição atual, as esposas são exatamente as estreantes. Isso relativiza a ideia de renovação, uma vez que elas já trazem consigo um capital familiar », afirma Goulart.
Michelle Bolsonaro é o caso mais citado de investimento de partidos de direita na formação de quadros femininos. Ela presidiu o PL Mulher de março de 2023 a junho deste ano, período em que a legenda ganhou mais de 72 mil novas filiadas. Para Goulart, esse investimento se apoia em um discurso conservador que defende a família tradicional e um papel submisso da mulher.
A lei exige que ao menos 30% das candidaturas em eleições proporcionais sejam de mulheres e que pelo menos 30% das verbas de campanha e do tempo de propaganda sejam destinados a elas. Goulart critica que, na prática, nomes conhecidos ao Senado podem concentrar recursos e, com isso, reduzir a entrada de novas mulheres na política.
Ainda assim, a eleição teve o maior número de mulheres eleitas ao Senado desde a redemocratização: 12, ante 8 em 2002, até então o recorde. Elas ocuparão 22,2% das 54 vagas em disputa a partir de 2027 e, somadas às seis senadoras que já têm mandato até 2031, a bancada feminina terá 18 integrantes.
Gracinha Caiado foi a única das quatro estreantes a responder aos pedidos de posicionamento. Em texto, ela afirmou que « conexões familiares, por si só, podem ser boas ou ruins » e disse ter trajetória própria: « minha identidade não precisa ser construída em oposição à dele ». Como senadora eleita, afirma que terá mandato, voz e responsabilidades próprias.
Os mandatos começam em 2027. A discussão que fica é até que ponto a entrada de estreantes ligadas a famílias de poder amplia a representação feminina ou apenas reorganiza o poder já existente nos estados.



