Vitória, domingo 18 de outubro de 2026
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Oriente Médio

Preços em Gaza disparam após Israel suspender entrada de mercadorias comerciais

Famílias em Gaza estocam alimentos após Israel suspender a entrada de mercadorias comerciais; ovos, farinha e cebola subiram em poucos dias.

Por Roberto Andrade ·
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Os preços em Gaza sobem diariamente desde quarta-feira (14), quando Israel anunciou a suspensão da entrada de mercadorias comerciais no território. Já submetidas ao cerco, famílias começaram a estocar o que ainda encontram nos mercados, com receio de escassez e de novos aumentos.

Segundo relatos, o custo da farinha, dos ovos, da cebola e de outros itens básicos disparou desde o anúncio. A medida ocorre em meio a uma disputa sobre taxas envolvendo comerciantes palestinos e o Hamas, que ainda exerce alguma autoridade na Faixa de Gaza.

Desde o início da guerra iniciada por Israel em outubro de 2023, centenas de milhares de palestinos caíram na pobreza. Com a renda reduzida e o cerco mais rígido, quem não tem dinheiro para comprar em grande quantidade precisa comprar aos poucos, e são essas pessoas as mais atingidas se a passagem seguir fechada.

Ismail al-Barawi, de 52 anos, morador de Jabalia, no norte de Gaza, percebeu uma alta significativa em dois ou três dias após o fechamento das passagens. Ele afirmou que uma cartela de ovos que custava 35 shekels (US$ 11,34) passou a ser vendida entre 60 e 70 shekels (entre US$ 18 e US$ 21).

O quilo da cebola subiu de cinco ou seis shekels para entre oito e dez shekels, enquanto o quilo do abacate foi de sete ou oito shekels para cerca de 15 shekels (US$ 4,50). “Essas altas aconteceram em apenas dois ou três dias”, disse ele, preocupado com o que pode ocorrer se as passagens continuarem fechadas por mais 10 a 15 dias.

Com os aumentos, al-Barawi passou a comprar quantidades menores. Em vez de uma cartela cheia, com 30 ovos, ele leva apenas quatro ou cinco. Ele prevê que um saco de 50 kg de farinha possa chegar a 200 ou até 300 shekels (entre US$ 60 e US$ 90) caso a situação persista.

Ele é responsável pelo sustento de cerca de 11 ou 12 pessoas da família extensa, incluindo filhas casadas e netos. Quando tem dinheiro, prioriza itens como farinha, arroz, óleo de cozinha, cebola e batata. “Hoje, todo mundo negocia às custas do povo. Não há misericórdia”, afirmou, criticando comerciantes que aumentam preços assim que surgem notícias de possível fechamento das passagens.

Al-Barawi reconhece que estocar agora faz sentido diante da incerteza, mas lembra que muitas famílias não têm sobra de dinheiro. “Algumas pessoas nem conseguem se alimentar por um dia. Quanto podem poupar ou estocar sem dinheiro?”, questionou. Ele também observa limites para o estoque: legumes frescos podem estragar em poucos dias, e a energia instável dificulta a conservação de carne por muito tempo.

Na quinta-feira (15), o Escritório de Mídia do Governo de Gaza rejeitou a explicação israelense para a suspensão e negou que as autoridades locais tenham imposto impostos ou taxas sobre caminhões comerciais. Segundo o órgão, o valor de 10 mil shekels (US$ 3.242) citado por Israel está ligado a um fundo comunitário voluntário destinado a famílias vulneráveis e a projetos de alívio financeiro.

O governo local também afirmou que a cobrança de 30% em transações feitas em dinheiro vivo foi definida em acordo com a Câmara de Comércio, para enfrentar a falta de liquidez e a circulação de cédulas desgastadas. A nota acusa Israel de usar a disputa para impor novas restrições à entrada de suprimentos no território, que está sob bloqueio israelense desde 2007.

O escritório pediu que mediadores e organismos internacionais pressionem pela entrada de 600 caminhões por dia, conforme acordos já existentes com Israel, e alertou que a continuidade das restrições agravará a crise humanitária e econômica. Segundo a Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), os preços de alimentos em Gaza em setembro de 2026 estavam, em média, 204% acima dos níveis anteriores a outubro de 2023.

A moradora Iman Atallah, de 50 anos, deslocada e vivendo em Beit Lahiya, também no norte do território, disse que a suspensão das entregas trouxe de volta lembranças da fome provocada pelo homem que atingiu a região em 2025. Ela relatou que o saco de farinha, que custava entre 25 e 35 shekels (entre US$ 7,50 e US$ 10,50) antes do fechamento, chegou a cerca de 80 shekels (US$ 24).

“Antes de as passagens fecharem, a farinha era acessível. Conseguíamos comprar. Agora custa 80 shekels”, afirmou. A farinha recebida por meio de distribuições de ajuda dura menos de um mês, e a família, que depende de arroz e lentilha, às vezes pula o café da manhã ou o jantar, com o almoço como principal refeição do dia.

“Não podemos estocar porque não temos renda”, disse Atallah. “Se as passagens ficarem fechadas por 10 ou 15 dias, tudo vai ficar extremamente caro. Quem tem dinheiro vai estocar, e quem não tem vai apenas assistir.” Para famílias como a dela, a perspectiva é de agravamento caso a crise continue.

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