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Garimpo no Sudão: ataque aéreo perto da fronteira com o Egito deixa ao menos 114 mortos

Bombardeio atinge mina de ouro artesanal na fronteira do Sudão com o Egito e deixa ao menos 114 mortos, segundo grupo de direitos humanos.

Por Roberto Andrade · · Atualizado às 12h06
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Em um país devastado por três anos de guerra civil, muitos jovens sudaneses recorreram ao garimpo no Sudão como única forma de sustento. Foi nesse cenário que um bombardeio atingiu uma mina de ouro artesanal no sábado (10 de outubro), matando ao menos 114 pessoas, segundo o grupo de direitos humanos Emergency Lawyers.

O ataque ocorreu na região do Vale do Norte, próxima à fronteira com o Egito. Mineradores e parte da população atribuem a ação ao país vizinho, considerado pelos garimpeiros o principal suspeito. Até o fechamento desta reportagem, nenhuma autoria foi oficialmente reconhecida pelo governo egípcio.

A revolta cresceu entre sudaneses que veem no episódio uma agressão contra trabalhadores responsáveis por boa parte do ouro consumido na região. Muitos também criticam a incapacidade do Sudão de proteger a própria população em meio ao conflito.

Um comerciante de ouro que atuava em outro garimpo e foi ajudar os sobreviventes resumiu o sentimento de quem está no local. “Essas são pessoas que chegaram aqui apenas para ganhar a vida, com o próprio trabalho duro”, afirmou. Segundo ele, as famílias dos trabalhadores estão espalhadas pelo país por causa da guerra, e o dinheiro enviado por eles é o que mantém muitos parentes.

Ao chegar ao local, ele encontrou cenas de caos. Sacolas verdes usadas para carregar o material escavado estavam espalhadas pelo chão, pois os trabalhadores abandonaram o serviço para resgatar os feridos. Com cobertores, improvisaram macas e levaram os feridos em caminhonetes para cidades próximas, enquanto outros começavam a cavar sepulturas para os mortos.

Os mineradores afirmam que o ataque foi realizado pelo Egito. O Exército egípcio confirmou ter conduzido operações contra o que chamou de mineração ilegal de ouro no deserto oriental, mas não comentou especificamente o bombardeio. Segundo a imprensa sudanesa, o mesmo local já havia sido atingido em junho, com pelo menos 15 mortos.

Desde então, o Egito tem realizado incursões na área, com prisões de garimpeiros e apreensão de equipamentos. O governo egípcio afirmou ter distribuído panfletos alertando civis para deixarem a região antes da operação. Fotos publicadas nas redes sociais mostram um desses panfletos, com a frase: “Entreguem-se e seus equipamentos. Suas vidas são mais importantes que qualquer equipamento”.

Mohamed Salah, diretor do Emergency Lawyers, afirmou que houve confrontos entre mineradores e forças de segurança egípcias antes do bombardeio, quando os agentes tentavam retirar os trabalhadores da área. “Embora as autoridades egípcias tentem há muito tempo conter o comércio ilegal na fronteira, os moradores não esperavam uma escalada envolvendo aeronaves militares”, disse.

Segundo Salah, a maior parte dos garimpeiros se dispersou após o ataque, mas não deve ficar longe por muito tempo. “Os mineradores dizem que vão voltar, porque a mineração artesanal nessas áreas de fronteira é a única fonte de renda para eles”, afirmou.

Muitos dos trabalhadores vêm de regiões atingidas pelo conflito, como Darfur e Kordofan, e percorreram o interior do país até chegar à fronteira com o Egito. Há ainda uma estimativa de que cerca de 60% do ouro produzido e contrabandeado a partir do norte sudanês acabe em território egípcio.

A ativista de direitos humanos Hala al-Karib, que lidera a rede Strategic Initiative for Women in the Horn of Africa, afirma que o bombardeio expõe a vulnerabilidade de quem vive do garimpo. “Eles estão bloqueados de qualquer outro meio de sobrevivência, com o colapso do sistema educacional e as altas taxas de desemprego. Que outras opções têm para sobreviver?”, questionou.

A atividade também traz riscos à saúde, já que o trabalho manual e o uso de substâncias como mercúrio e cianeto para processar o ouro expõem os trabalhadores a danos graves. Apesar da guerra entre o Exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido, a produção de ouro segue em áreas controladas pelos dois lados, e o número de minas artesanais cresce com o avanço da pobreza no país.

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