Vitória, quinta-feira 22 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Tecnologia & Saúde

Leishmaniose visceral pode ser confundida com outras doenças do sangue

Relato de caso de pesquisadores da USP e da UFRN mostra como a leishmaniose visceral pode imitar doenças do sangue e dificultar o diagnóstico.

Por Roberto Andrade ·
Compartilhe:
Leishmaniose visceral pode ser confundida com outras doenças do sangue
Imagem ilustrativa. Foto: The African Union Mission in Somalia / rawpixel (CC0)

Um homem de 86 anos, com febre recorrente, perda de peso e alterações nas células do sangue, foi investigado por suspeita de doença da medula óssea. Os exames revelaram outro problema: ele também tinha leishmaniose visceral, infecção causada pelo parasita Leishmania infantum. Segundo o relato publicado na revista Discover Medicine, a doença passou despercebida em um primeiro teste e só foi identificada após a análise do tecido e a confirmação por exame molecular.

O estudo é assinado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com colaboradores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Para os autores, o caso mostra como a infecção pode ser difícil de diagnosticar. Ela pode alterar a produção das células do sangue e apresentar sinais semelhantes aos de doenças hematológicas. Por isso, defendem que a possibilidade de infecção seja considerada em áreas onde a doença é endêmica, mesmo quando os primeiros exames apontam para outro problema.

A leishmaniose é uma doença infecciosa, mas não contagiosa, causada por protozoários do gênero Leishmania. A transmissão ocorre sobretudo pela picada do flebotomíneo, inseto conhecido popularmente como mosquito-palha. A forma tegumentar afeta principalmente a pele, enquanto a visceral pode atingir órgãos internos, como fígado, baço e medula óssea, tecido responsável pela produção das células do sangue.

Relatos de caso são estudos descritivos, sem grupo de controle, que documentam uma situação rara ou relevante a partir da rotina clínica. Eles não permitem generalizações, mas costumam sugerir hipóteses para pesquisas futuras.

O paciente morava no Rio Grande do Norte, estado onde a leishmaniose é endêmica, ou seja, ocorre com frequência. Ao chegar ao hospital, apresentava quadro semelhante ao de uma leucemia aguda, com pancitopenia, redução grave de diferentes tipos de células do sangue. De acordo com Sandra Márcia Muxel, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e orientadora da pesquisa, as primeiras análises da medula levantaram a hipótese de uma doença hematológica. Entre as suspeitas estava a síndrome mielodisplásica, um conjunto de doenças do sangue em que a produção das células ocorre de forma anormal.

A investigação, porém, mostrou um cenário mais complexo. Segundo Ian Antunes, doutorando do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e primeiro autor do artigo, o paciente tinha a síndrome e a leishmaniose ao mesmo tempo. Um dos pontos que mais chamou atenção foi o resultado do teste rápido rK39, que busca anticorpos contra o parasita no sangue. O exame deu falso negativo. Segundo o pesquisador, quando a medula óssea está comprometida, a produção de anticorpos pode cair, o que reduz a sensibilidade do teste.

Mesmo com o resultado negativo, a suspeita não foi descartada, sobretudo por se tratar de uma região endêmica. A equipe coletou uma amostra da medula, procedimento recomendado nesses casos, e a analisou por microscopia. Segundo Sandra Muxel, foi possível identificar visualmente, em grande quantidade, as formas amastigotas do parasita. A confirmação veio pela reação em cadeia da polimerase (PCR), exame de biologia molecular considerado padrão-ouro para identificar o parasita, que detectou o material genético da Leishmania infantum.

“A leishmaniose é uma doença que, se não for tratada, é fatal. Um diagnóstico correto é essencial para iniciar o tratamento mais rapidamente”, afirmou Sandra Muxel. No caso relatado, o quadro evoluiu rapidamente. Segundo o artigo, o paciente estava gravemente comprometido e recusou transfusões de sangue por motivos religiosos, o que limitou o suporte durante a internação. Ele morreu antes de concluir o tratamento para a leishmaniose.

Para Antunes, o objetivo do relato é ajudar profissionais a reconhecer quadros que, à primeira vista, são confusos. A integração entre hematologia, citometria de fluxo, parasitologia e diagnóstico molecular, segundo ele, é essencial para reduzir atrasos e orientar a conduta clínica.

Dados citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a doença é endêmica em 80 países, com cerca de 50 mil a 90 mil casos por ano, dos quais apenas 25% a 45% são notificados. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o Brasil concentra cerca de 92% dos casos de leishmaniose visceral registrados nas Américas. No país, o Nordeste reúne a maior parte dos casos, seguido por Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. As capitais e grandes centros concentram parte relevante das ocorrências, em razão de migração, mudanças ambientais e climáticas, obras com impacto ambiental e vulnerabilidade socioeconômica.

Os principais sintomas incluem febre que dura mais de uma semana, inchaço na barriga causado pelo aumento do fígado e do baço, emagrecimento, anemia e fraqueza intensa. Segundo a OPAS, o diagnóstico pode ser feito por teste rápido, exames parasitológicos e testes moleculares. A escolha do tratamento depende das características clínicas e do estado imunológico de cada paciente. No Brasil, o medicamento recomendado, a anfotericina B lipossomal, é disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Agora, o grupo investiga como a Leishmania infantum altera o ambiente da medula óssea. A intenção é identificar mecanismos que possam contribuir para novas estratégias de diagnóstico e tratamento. Diante de febre persistente e alterações importantes no sangue, procure um profissional de saúde e informe se você esteve em áreas onde a doença é comum.

Compartilhe:

Leia também