Afastamentos por ludopatia batem recorde em 2026 após avanço das bets
Afastamentos por ludopatia somam 377 casos até agosto de 2026, recorde desde a expansão das bets, com impacto em benefícios e no SUS.
Os afastamentos do trabalho por ludopatia, o vício em jogo, atingiram recorde em 2026. Segundo levantamento com dados da Previdência Social, foram 377 casos registrados até agosto, acima dos 312 de todo o ano passado. No mesmo período, os benefícios concedidos somavam R$ 1,9 milhão.
O crescimento acompanha a chegada das casas de apostas on-line ao país, liberadas em 2018. Entre 2018 e 2022, o número de afastamentos por esse motivo ficou em torno de dez por ano. A partir de 2023, a quantidade passou a subir ano após ano.
O custo também disparou. Em junho deste ano, o gasto com a concessão de benefícios foi seis vezes maior do que em 2023. Desde junho de 2023, os afastamentos por ludopatia custaram cerca de R$ 4,8 milhões à Previdência, segundo estimativa do levantamento.
A Previdência Social e o INSS reconhecem que esses números não revelam todo o problema. Parte das pessoas com o diagnóstico se afasta por outros quadros de saúde e, por isso, não é registrada com o código usado para o jogo patológico, o F63.0 da Classificação Internacional de Doenças. O Ministério da Previdência Social também afirma que os casos são subnotificados.
Por estado, São Paulo lidera, com 297 benefícios, seguido de Minas Gerais (110), Rio Grande do Sul (76), Rio de Janeiro (68) e Paraná (58).
A psiquiatria reconhece a ludopatia como doença desde 1980. Especialistas explicam que ela atua no cérebro de forma semelhante à dependência de álcool e drogas, mas que o celular deixa o jogo disponível o tempo todo, o que torna a superação mais difícil.
A atendente de telemarketing Vitória Macedo, de 29 anos, perdeu mais de R$ 30 mil em apostas online, incluindo valores de saques do FGTS. Mãe solo de um filho autista, ela buscava uma renda extra quando conheceu as plataformas por meio de colegas de trabalho. Hoje, sem apostar, paga em 12 parcelas o empréstimo feito na época, e seu nome segue negativado.
Para o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo, pesquisador do ambulatório de transtornos do impulso do Hospital das Clínicas de São Paulo, o padrão mudou desde a chegada das bets. Antes, entre a primeira aposta e o adoecimento com impacto financeiro, passavam-se em média sete anos. Atualmente, segundo ele, em poucos meses a vida de uma pessoa pode ser comprometida. Ele afirma ainda que, entre os pacientes do ambulatório, 80% tiveram pensamentos suicidas ou tentaram suicídio em algum momento da doença.
Em 2023, o país regulamentou o setor, com a exigência de pagamento pela autorização para operar e a cobrança de impostos. As empresas passaram a ter de oferecer ferramentas de proteção, como limites de gasto e de tempo e canais de autoexclusão. Na prática, porém, nem sempre as regras foram cumpridas.
Um caso investigado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) envolve a BetBoom, empresa que operava com licença. Segundo o promotor Paulo Roberto Binicheski, a casa chegou a usar uma gerente para incentivar, pelo WhatsApp, uma apostadora com ludopatia a continuar jogando, inclusive com oferta de bebida alcoólica. A Justiça bloqueou R$ 97 mil das contas da empresa para garantir eventual indenização.
Atualmente, uma medida provisória do governo federal proíbe as bets no Brasil. O texto vale por até 120 dias e precisa ser aprovado pelo Congresso para virar lei. O promotor avalia que a suspensão pode empurrar as apostas para o mercado ilegal, o que dificultaria tanto a fiscalização quanto o pagamento de indenizações.
No Sistema Único de Saúde (SUS), os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) já operam no limite. Segundo o Ministério da Saúde, os atendimentos por ludopatia na atenção básica passaram de 668, em 2021, para 1,2 mil em 2022, e superaram 6,4 mil em 2025. A pasta informa que o orçamento da saúde mental subiu de R$ 1,7 bilhão, em 2022, para R$ 2,9 bilhões, em 2025.
Quem enfrenta problemas com jogos e apostas, ou tem alguém próximo nessa situação, pode buscar atendimento gratuito pelo SUS, presencialmente ou por teleatendimento. A oferta on-line, por videochamada e com sigilo, começou em março deste ano e inclui um ciclo inicial de até dez sessões. Também é possível procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Em situação de sofrimento, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, 24 horas por dia.



