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Ueno Bank Paraguai: entenda a crise que levou à renúncia de Santiago Peña

O colapso do Ueno Bank deixou clientes sem acesso às contas e levou o presidente Santiago Peña a apresentar renúncia, em meio a protestos no Paraguai.

Por Roberto Andrade ·
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O colapso de um banco digital no Paraguai abalou o país, levou o presidente da República a apresentar renúncia e tirou o presidente do Banco Central do cargo. Nesta quinta-feira (6), Santiago Peña entregou sua renúncia em meio a protestos em massa, e a crise começou com o Ueno Bank, instituição que, segundo a fonte, tem cerca de 60% da população adulta do país entre seus clientes.

Lançado em 2021, o Ueno era comparado a bancos digitais de crescimento acelerado, como Nubank, Monzo e Revolut. Bancos digitais funcionam sobretudo pelo celular e pela internet. Em junho, o banco informou ter cerca de 3 milhões de clientes em um país de 6,5 milhões de habitantes e administrar cerca de 850 milhões de dólares em recursos públicos, vindos de órgãos estatais e de fundos de previdência.

A expansão foi rápida. Após obter a licença bancária em 2023, o banco, que era uma renomeação de uma financeira com décadas de existência, atraiu clientes com ofertas de cashback em supermercados, chegou a mais de 70 agências e colocou seu nome no principal estádio do país, o Defensores del Chaco, em Assunção.

Nos últimos meses, porém, o banco passou a ser investigado pelo regulador por supostas concessões excessivas de crédito a empresas ligadas ao seu controlador, o Grupo Vázquez. Segundo a imprensa paraguaia, investigadores do Banco Central identificaram, já em junho, um padrão de empréstimos de risco a pessoas ligadas à instituição. Em um único dia de setembro de 2025, quase 39 milhões de dólares foram destinados a três dessas empresas.

Mesmo com os alertas, o governo manteve a confiança no banco. No mês passado, Peña defendeu o Ueno e a supervisão do Banco Central e afirmou que havia uma campanha difamatória para criar temor na população.

Na segunda-feira (2), órgãos reguladores encontraram operações de crédito mal documentadas e despesas registradas de forma incorreta como ativos. Com os livros corrigidos, o capital do banco, que é a reserva para absorver perdas, caiu para menos da metade do mínimo legal. Na terça-feira (3), o Banco Central assumiu o controle da instituição.

Na prática, o aplicativo, os cartões e as transferências deixaram de funcionar, e as agências fecharam. Clientes fizeram filas do lado de fora sem conseguir sacar suas economias. Na quarta-feira (5), a corrida para abrir contas em outros bancos sobrecarregou os aplicativos de outras instituições e ampliou o pânico. Autoridades afirmam ter começado a reembolsar depositantes e a abrir novas contas para cerca de 280 mil pessoas que tinham contas exclusivamente no Ueno.

“O sistema bancário está sólido”, afirmou Pedro Acosta Bernal, presidente interino do Banco Central desde quarta-feira, após a saída de Carlos Carvallo, que deixou o cargo a pedido de Peña. Oito executivos de alto escalão foram detidos, entre eles o fundador Miguel Vázquez e o presidente do banco, Juan Manuel Gustale. O Ministério Público indiciou 27 funcionários e parceiros de negócios por crimes como abuso de confiança e tentativa de fraude.

Peña, próximo de Donald Trump e de Javier Milei, foi economista do Fundo Monetário Internacional e ministro da Fazenda, e era acionista do Grupo Vázquez até março de 2025. Parlamentares da oposição o acusam de conflito de interesses, uso indevido de fundos de previdência e encobrimento das falhas do banco. Ele nega vínculos indevidos com a instituição.

Após perder apoio dentro do próprio partido, Peña apresentou sua renúncia, mas o Congresso a rejeitou e abriu processo de impeachment por unanimidade. No Paraguai, ex-presidentes se tornam senadores vitalícios e mantêm imunidade parlamentar, o que torna a renúncia insuficiente para encerrar o caso. Para avançar, o impeachment exige maioria de dois terços dos deputados presentes e, depois, outra maioria de dois terços no Senado.

Enquanto isso, clientes, estudantes, trabalhadores e aposentados, que têm parte das pensões pagas pelo banco agora falido, tomam as ruas. Centenas de funcionários do Ueno e de outras empresas do Grupo Vázquez protestaram em frente ao Ministério do Trabalho, cobrando indenizações e salários atrasados.

O caso mostra como a confiança no sistema financeiro depende de supervisão independente e da separação entre interesses privados e recursos públicos. No estádio Defensores del Chaco, o logotipo do banco já foi removido.

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