Sinais de ferritina baixa no rosto existem? Especialistas dizem que a aparência não basta
Tendência “ferritin face” nas redes associa cansaço e mudanças na pele ao ferro baixo, mas médicos alertam que a aparência não diagnostica a deficiência.
Olheiras, pele opaca e cabelo sem brilho podem indicar falta de ferro? Nas redes sociais, vídeos com a expressão “ferritin face” somaram milhões de visualizações ao sugerir que sinais de ferritina baixa apareceriam no rosto.
A ferritina é uma proteína que armazena ferro no organismo. Usuários do TikTok e do Instagram listam pele pálida ou acinzentada, olheiras escuras, lábios secos, queda de cabelo e unhas fracas como pistas de que os níveis estão baixos. Algumas publicações trazem fotos de antes e depois para reforçar a comparação.
Médicos ouvidos pela reportagem afirmam, porém, que a aparência sozinha não permite diagnosticar deficiência de ferro. A clínica geral Aziza Sesay, que atua na região de West Midlands, no Reino Unido, diz que o “ferritin face” não é um diagnóstico médico, mas pode ser um alerta de que algo está acontecendo no corpo.
Pele pálida, queda de cabelo e unhas quebradiças podem acompanhar a falta de ferro, mas também aparecem em outras condições. Por isso, os especialistas destacam que os sintomas e a forma como a pessoa se sente pesam mais do que a aparência.
Há uma diferença importante entre o ferro guardado e o que circula no sangue. A ferritina indica o estoque de ferro do corpo, enquanto a hemoglobina é a proteína dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio. Quando a hemoglobina cai, instala-se a anemia, mas os estoques podem se esgotar bem antes disso.
Isso significa que uma pessoa pode ter deficiência de ferro e sintomas sem estar anêmica. O hematologista Drew Provan descreve essa situação como uma desconexão: o organismo tem pouco ferro armazenado, mas mantém a hemoglobina. Segundo diretrizes da Sociedade Britânica de Gastroenterologia, ferritina abaixo de 15 microgramas por litro indica estoques de ferro ausentes, e valores abaixo de 30 microgramas por litro costumam indicar estoques baixos.
A hematologista Sue Pavord afirma que a deficiência de ferro é comum e frequentemente não diagnosticada em mulheres. Para Provan, é impossível estimar a ferritina pela aparência do rosto, já que esses sinais visuais são subjetivos e pouco confiáveis. Em pessoas de pele mais escura, as mudanças de cor podem ser ainda menos evidentes.
Os exames de sangue são necessários para confirmar a deficiência e identificar a causa, que pode envolver menstruação intensa, baixa ingestão de ferro na alimentação, perda de sangue no trato digestivo ou dificuldade de absorção no intestino. O tratamento costuma ser feito com suplementos orais, sempre acompanhado da investigação da causa.
Pavord recomenda tomar os comprimidos de ferro em jejum, de preferência pela manhã, e evitar chá ou café no mesmo horário, já que essas bebidas podem atrapalhar a absorção. O ferro também está presente em carnes, feijões, lentilhas, folhas verdes e cereais fortificados. Os médicos alertam que tomar suplementos sem diagnóstico pode ser prejudicial e que a automedicação pode atrasar a investigação de um problema de fundo.
Lucy M., de 32 anos, que publica sobre queda de cabelo nas redes, relata que, em 2021, teve palpitações, cansaço e queda de cabelo. Após exames considerados normais e um diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada, um teste posterior mostrou ferritina de 12 microgramas por litro. Ela avalia que as redes ajudaram mulheres a levar sintomas a sério e a fazer perguntas, embora não seja profissional de saúde.
Sesay descreve as redes sociais como uma “espada de dois gumes”: podem incentivar a busca por ajuda, mas também levar à autodiagnose a partir de um vídeo curto. Para quem sente cansaço persistente, palpitações ou queda de cabelo, a orientação é procurar um profissional de saúde para avaliação e exames, em vez de tentar identificar a causa pela aparência.



