Vitória, domingo 8 de novembro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Opinião

Quando a imprensa empresta sua credibilidade à mentira: Flávio Bolsonaro, a fraude eleitoral e a fabricação de uma ditadura

Por Repórter Capixaba ·
Compartilhe:

Há uma diferença entre dar voz a um político e transformar suas declarações em verdades aparentemente legítimas. Quando a imprensa reproduz acusações graves sem confrontá-las com os fatos, deixa de informar e passa a funcionar como instrumento de propaganda. É o que preocupa na exposição internacional de Flávio Bolsonaro, que concedeu entrevistas à Folha de S.Paulo, ao New York Times e ao Washington Post, apresentando-se como representante da oposição brasileira e denunciando uma suposta deterioração democrática no país.

A pergunta que deveria anteceder essas entrevistas é simples: quem autorizou Flávio Bolsonaro a reivindicar tamanha representatividade? Senador da República, que desrespeitou uma ordem judicial e fugiu do país, ele não possui legitimidade para criticar o governo e questionar decisões judiciais. Sua projeção se resume ao sobrenome que carrega. A liderança que mobilizou milhões de brasileiros foi construída por Jair Bolsonaro, seu pai. Transformar esse capital político em herança familiar é uma operação de sucessão simbólica que a imprensa não deveria aceitar sem questionamentos.

A exportação de uma narrativa sem provas

A denúncia de uma suposta ditadura brasileira não surgiu do nada. Ela se insere no histórico de contestação eleitoral do bolsonarismo, que durante anos alimentou suspeitas sobre as urnas eletrônicas sem apresentar provas capazes de sustentar as acusações. Agora, Flávio tenta internacionalizar essa narrativa, apresentando o Brasil como um país de perseguição política e restrição de liberdades.

Criticar o Supremo Tribunal Federal é legítimo. Questionar decisões judiciais também. O que não se pode fazer é confundir divergência política com evidência de ruptura democrática. Afirmar que um país vive sob uma ditadura exige demonstração concreta, não blá-blá-blá de um político fujão. O jornalismo não pode se contentar em registrar essas declarações como mais uma versão da disputa política. Quando um entrevistado acusa o país de fraude e autoritarismo, a obrigação do repórter não termina com a publicação da entrevista. Começa justamente ali.

Que fraude é essa que só aparece na eleição presidencial?

A contradição é ainda mais evidente quando se observa o desempenho eleitoral do próprio Partido Liberal. Nas eleições de 2026, o PL elegeu 121 deputados federais, tornou-se a maior bancada da Câmara e conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado, chegando a 28 representantes na Casa. O partido que denuncia a suposta manipulação eleitoral ampliou sua presença no Congresso e consolidou sua força política.

Que fraude é essa que teria comprometido a eleição presidencial, mas permitido ao PL conquistar a maior bancada da Câmara? Que ditadura é essa que impediria a manifestação da vontade popular, mas permitiria à oposição disputar eleições, conquistar milhões de votos e ocupar posições relevantes no Legislativo?

O resultado parlamentar torna indispensável uma explicação técnica para qualquer alegação de fraude específica na disputa presidencial. Depois de anos de questionamentos sobre as urnas eletrônicas, a imprensa deveria cobrar evidências concretas, e não se limitar a reproduzir suspeitas. A contradição entre a denúncia de fraude e o expressivo desempenho legislativo do bolsonarismo é um dado político que não pode ser varrido para debaixo do tapete.

O falso equilíbrio que protege a desinformação

Parte da imprensa ainda confunde equilíbrio com a obrigação de colocar fatos comprovados e acusações sem provas no mesmo plano. De um lado, estão resultados oficiais, procedimentos de auditoria e informações institucionais; do outro, declarações de políticos que contestam esses elementos sem apresentar evidências suficientes. Tratar essas posições como equivalentes não é neutralidade. É falsa equivalência.

Não é aceitável transformar veículos de comunicação em tribuna para a disseminação de acusações falsas. E, convenhamos, já está na hora de a imprensa reavaliar a insistência em conceder espaço indiscriminado à família Bolsonaro, cujos integrantes fazem da desconfiança institucional e da contestação política uma estratégia recorrente. A mentira como ferramenta de mobilização não é uma particularidade brasileira: integra uma prática observada em setores da direita radical internacional.

O jornalismo que se limita a reproduzir declarações, sem investigá-las, abdica de sua função crítica e entrega ao leitor a tarefa de distinguir informação de propaganda.

A credibilidade da imprensa não pode ser exportada como selo de aprovação

A responsabilidade dos veículos internacionais é ainda maior. Para boa parte do público estrangeiro, o Brasil é uma realidade distante, conhecida principalmente por jornais e grandes emissoras. Quando um veículo de prestígio entrevista um político que denuncia uma suposta ruptura democrática, sua reputação pode funcionar como um selo indireto de credibilidade para o entrevistado. A ausência de contexto, portanto, não é um detalhe editorial: pode produzir uma imagem distorcida do país.

O Brasil tem problemas institucionais reais. O Supremo não está acima do escrutínio público, decisões judiciais podem ser questionadas e o governo precisa ser fiscalizado. Mas reconhecer essas questões não significa aceitar que acusações sem comprovação sejam apresentadas como retrato da democracia brasileira. A crítica às instituições não autoriza a fabricação de uma ditadura imaginária, assim como a insatisfação com um resultado eleitoral não constitui prova de fraude. A imprensa não tem obrigação de proteger governos, partidos ou tribunais. Tem a obrigação de proteger o rigor da informação.

Quando a neutralidade serve para colocar a verdade e a falsificação no mesmo patamar, ela deixa de ser virtude jornalística e se torna cumplicidade involuntária com a desinformação. A imprensa não precisa escolher um lado na disputa partidária. Precisa escolher entre os fatos e a propaganda. E, nessa escolha, não existe equilíbrio possível entre aquilo que foi comprovado e aquilo que continua sendo apenas uma acusação.

Compartilhe:

Leia também