Vitória, domingo 8 de novembro de 2026
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Múmias incas revelam drogas usadas em sacrifícios de crianças

Estudo com múmias incas identifica coca, álcool e harmina no cabelo e nas unhas de crianças sacrificadas em rituais no Andes.

Por Roberto Andrade ·
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Vaso de cerâmica avermelhado sobre plataforma de pedra, folhas verdes de coca, tubos de ensaio com líquidos coloridos e montanhas andinas com picos nevados sob um sol amarelo.
Ilustração: Repórter Capixaba

Crianças incas que seriam sacrificadas aos deuses andinos podiam receber substâncias que reduziam a ansiedade e o pavor do ritual. Um novo estudo com múmias incas identificou quais substâncias psicoativas eram usadas na preparação das vítimas.

O sacrifício humano tinha papel central na religião inca. Os escolhidos, em geral entre 6 e 15 anos, eram vistos como embaixadores sagrados que faziam a ponte entre a humanidade e as divindades.

O ritual, chamado capacocha, era realizado para restaurar a estabilidade após crises no império. Um relato do frei espanhol Martín de Murúa, escrito em 1590, afirma que a cerimônia buscava afastar a fome, a seca, a pestilência e a rebelião.

Segundo a visão inca, as crianças eram selecionadas por critérios subjetivos, como a beleza e a ausência de defeitos físicos. Muitas eram levadas a Cusco, a capital do império, antes de seguir para locais sagrados, em viagens que podiam durar meses por terrenos difíceis.

Cronistas espanhóis relatam que as vítimas bebiam chicha, uma cerveja de milho fermentada. Estudos anteriores já haviam encontrado vestígios de coca e álcool em algumas múmias incas, mas os testes para outras substâncias costumavam ser inconclusivos ou negativos.

Para responder a essa lacuna, pesquisadores analisaram amostras de cabelo e unhas de oito crianças mumificadas e congeladas, encontradas no alto de vulcões no Peru e na Argentina. Elas tinham entre 6 e 14 anos, e sete eram meninas.

Os exames encontraram cocaína em todas as amostras de cabelo e sinais de consumo de álcool em metade dos indivíduos. Já a harmina, composto associado à ayahuasca, apareceu nas unhas de uma das crianças. As substâncias não surgiram na mesma combinação: cada caso parecia ter uma assinatura química própria.

A presença de coca era, em certa medida, esperada. Como os resultados também detectaram benzoilecgonina, substância que o corpo produz ao metabolizar a droga, os cientistas concluem que as crianças mascavam folhas de coca, prática enraizada na cultura andina. A mastigação ajuda a suprimir fome, fadiga e mal da altitude, o que seria útil nas longas caminhadas.

Em duas crianças encontradas na Argentina apareceu cocaetileno, composto produzido pelo fígado quando cocaína e álcool estão presentes ao mesmo tempo. Em uma menina de cerca de 8 anos, sacrificada no monte Chuscha, a substância aparece apenas no trecho do cabelo referente ao último mês de vida. Segundo os autores, o álcool provavelmente foi ingerido na forma de chicha.

Já na menina de 14 anos encontrada no vulcão Ampato, no Peru, conhecida como Donzela de Ampato ou Juanita, a harmina foi detectada nas unhas. A substância inibe a degradação de neurotransmissores ligados ao humor, como a serotonina e a dopamina, o que pode ter ajudado a acalmar as crianças. Ela já havia sido identificada em duas múmias do mesmo vulcão em um estudo preliminar de 2022.

Segundo Dagmara Socha, primeira autora da pesquisa, a harmina está associada a espécies do gênero Banisteriopsis, usadas na ayahuasca. Isso sugere que uma bebida com essa substância pode ter tido função específica nas cerimônias realizadas nessa montanha sagrada.

Não foram encontrados sinais de alucinógenos fortes, como DMT, mescalina, escopolamina ou bufotenina. Os pesquisadores não descartam um uso pontual, que talvez não tenha deixado marcas no cabelo, mas avaliam que as substâncias serviam sobretudo para amenizar o desconforto físico e emocional da viagem final pelos Andes.

A pesquisa foi publicada em 3 de novembro na revista Antiquity. Segundo os autores, os avanços recentes da toxicologia permitiram identificar concentrações muito baixas dessas substâncias, o que pode revelar mais sobre como cada cerimônia era conduzida em diferentes montanhas.

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