Terapia celular contra câncer: pesquisadores do MIT reprogramam células de defesa dentro do corpo
Cientistas do MIT criam técnica que transforma células de defesa em combatentes de tumores dentro do corpo, com resultados promissores em camundongos.
Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, desenvolveram uma nova terapia celular contra câncer que reprograma células de defesa diretamente no organismo. A técnica pode tornar mais simples e baratos a produção e o uso de tratamentos avançados contra câncer e doenças autoimunes.
O método usa células natural killer (NK), um tipo de célula imunológica que pode ser programada para reconhecer e destruir células nocivas. Entre os alvos estão linfócitos T cancerosos e linfócitos T que atacam tecidos saudáveis, envolvidos em condições como linfoma e hepatite autoimune.
Em vez de retirar as células do paciente e modificá-las em laboratório, a equipe usa partículas minúsculas feitas de moléculas gordurosas para levar instruções genéticas, transportadas por RNA mensageiro, até as células NK. Essas instruções orientam as células a produzir proteínas especializadas que ajudam a identificar e eliminar as células T doentes.
As células resultantes, chamadas de CAR NK, poderiam ser usadas no futuro contra diversas doenças. Segundo os pesquisadores, fazer essa engenharia dentro do corpo eliminaria boa parte do tempo, do custo e da complexidade envolvidos na fabricação de terapias personalizadas.
“A ideia é que você possa aplicar uma nanopartícula que modifique as próprias células NK do paciente e as ensine a atacar células tumorais”, afirma Daniel Anderson, professor do Departamento de Engenharia Química do MIT. Ele é autor sênior do estudo, publicado na revista Nature Biotechnology.
A imunoterapia com células T modificadas já mudou o tratamento de alguns cânceres. Na última década, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos EUA, aprovou sete terapias desse tipo, com melhores resultados em cânceres do sangue. O processo, porém, é complexo: o sangue do paciente é coletado, as células T são modificadas em uma instalação especializada e, depois de multiplicadas, voltam ao hospital para a infusão.
Como as células modificadas e seus alvos são do mesmo tipo, elas podem acabar atacando umas às outras, o que compromete o tratamento. As células NK evitam esse problema por serem de outro tipo de célula imunológica. Segundo o pesquisador Yuang Chen, do MIT, elas podem tratar tanto cânceres de células T quanto doenças autoimunes em que essas células estão envolvidas.
Nos testes com camundongos, a terapia celular contra câncer modificou cerca de 80% das células NK visadas após a injeção das nanopartículas. Em camundongos com um melanoma agressivo, três dos cinco animais tratados alcançaram remissão completa.
Em outro modelo, com linfoma de células T, os animais receberam células sanguíneas humanas para ter um sistema imunológico parcialmente semelhante ao humano. Nesse caso, os tumores foram totalmente eliminados após cinco aplicações das nanopartículas, com resultados comparáveis aos obtidos com células NK modificadas pelo método tradicional.
Na hepatite autoimune, doença em que células T anormais atacam os hepatócitos, o tratamento eliminou as células T causadoras do dano. O tecido hepático lesionado se recuperou após uma única injeção de nanopartículas.
Os pesquisadores pretendem testar a técnica também em esclerose múltipla e artrite reumatoide, doenças em que respostas imunológicas nocivas são provocadas por células T disfuncionais. Ainda assim, os experimentos foram feitos em camundongos, e serão necessários mais estudos para verificar se o método é seguro e eficaz em humanos. Até agora, nenhuma terapia com células CAR NK recebeu aprovação da FDA. A pesquisa teve financiamento da Sanofi, do Marble Center for Cancer Nanomedicine e de uma bolsa de apoio do National Cancer Institute.



