Vitória, terça-feira 27 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Economia

Endividamento das famílias com atraso de pagamento atinge maior nível desde 2012, diz BC

A parcela das dívidas das famílias com problema de pagamento chegou a 9,2% em junho e é a maior desde 2012, segundo o Banco Central.

Por Roberto Andrade ·
Compartilhe:
Endividamento das famílias com atraso de pagamento atinge maior nível desde 2012, diz BC
Arte: Repórter Capixaba

O endividamento das famílias com problema de pagamento atingiu o maior nível desde 2012, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do Banco Central (BC). Os chamados ativos problemáticos são créditos com atraso superior a 90 dias ou com indícios de que não serão pagos integralmente. Em junho de 2026, eles representavam 9,2% da carteira de crédito às pessoas físicas.

Antes disso, o indicador havia chegado a 9,3%, o pico da série. No ponto mais baixo, em 2021, estava em 6,3%.

A piora atingiu todas as modalidades no primeiro semestre. Em quatro delas, o indicador alcançou o maior patamar da série. No cartão de crédito, a taxa chegou a 13,2% e fechou junho em 12,7%. No crédito rural, ficou em 10,3%, nos veículos em 8,5% e no consignado em 5,0%.

No crédito pessoal não consignado, a taxa é de 14,9%, a mais alta entre as linhas, mas ainda abaixo do pico de 16,5% registrado em 2016.

Segundo o BC, a inadimplência foi o principal motor da alta. Desde janeiro de 2025, a Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional (CMN) deixou a cargo dos bancos a decisão sobre quando baixar uma dívida como perdida. Com isso, as operações em atraso passaram a permanecer mais tempo nos balanços, o que eleva os indicadores.

O próprio BC estima que, sem essa mudança, a inadimplência do sistema financeiro seria 0,78 ponto percentual menor em junho, cerca de 45% da alta registrada desde dezembro de 2024. O relatório ressalta, porém, que a inadimplência teria subido mesmo com as regras antigas.

O pano de fundo é o aperto no orçamento das famílias. Mesmo com o desemprego em queda e o salário médio em alta, o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu o nível mais elevado em 21 anos.

O impacto é maior entre os tomadores de menor renda e vem sobretudo de linhas caras, como o cartão de crédito e o crédito pessoal sem garantia. Em junho, 20,3 milhões de pessoas se enquadravam no critério de “endividados de risco” do BC, o equivalente a 17% dos devedores do sistema financeiro e 75% a mais que em junho de 2021.

A perspectiva, segundo o relatório, não é de alívio no curto prazo. “A materialização de risco aumentou e deve continuar pressionada no curto prazo”, afirma o documento. As estimativas do BC indicam que os ativos problemáticos devem seguir elevados na maioria das modalidades ao longo de 2026, e os bancos sinalizam crédito mais restrito às famílias no segundo semestre.

Diante desse quadro, o BC estuda medidas macroprudenciais voltadas às linhas de maior risco para “reduzir o superendividamento”. Entre as opções estão exigências prudenciais mais duras para determinadas modalidades e um acompanhamento mais próximo da capacidade de pagamento dos tomadores. O relatório não traz calendário para essas medidas.

Apesar da piora, o BC avalia que “não há risco relevante para a estabilidade financeira”, já que os bancos aumentaram as provisões para perdas e mantêm capital e liquidez confortáveis.

Compartilhe:

Leia também