Vitória, terça-feira 27 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Tecnologia & Saúde

Anticoncepcional masculino em desenvolvimento nos Estados Unidos pode ser tomado 30 minutos antes do sexo

Universidade Cornell desenvolve pílula anticoncepcional masculina de efeito temporário, tomada 30 minutos antes do sexo, ainda em fase de testes.

Por Roberto Andrade ·
Compartilhe:
Anticoncepcional masculino em desenvolvimento nos Estados Unidos pode ser tomado 30 minutos antes do sexo
Arte: Repórter Capixaba

Pesquisadores da Universidade Cornell, em Nova York, desenvolvem um anticoncepcional masculino em formato de pílula que poderia ser usado apenas quando necessário, cerca de 30 minutos antes da relação sexual. A instituição informou nesta segunda-feira (26) que recebeu US$ 8,2 milhões do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD), dos Estados Unidos, para avançar no projeto e preparar o primeiro ensaio clínico em humanos, de fase 1.

A proposta difere da maioria dos métodos femininos, que usam hormônios para impedir a ovulação e exigem uso contínuo. O comprimido em estudo não usa hormônios e não altera os níveis de testosterona. Segundo os pesquisadores, ele garantiria uma janela de proteção de seis a oito horas, após a qual a fertilidade volta ao normal.

Na prática, a substância bloqueia uma enzima chamada adenilil ciclase solúvel (sAC), necessária para que os espermatozoides se movimentem. Sem esse movimento, eles ficam temporariamente imóveis e não conseguem alcançar o óvulo. Quando o efeito passa, o funcionamento normal é retomado.

Lonny Levin, professor de farmacologia da Weill Cornell e um dos líderes do projeto, afirma que o método pode contribuir para uma divisão mais equilibrada da responsabilidade pelo planejamento familiar. Em nota, ele lembrou que, hoje, as opções contraceptivas masculinas se resumem a preservativos e vasectomia, o que deixa o peso da contracepção sobre as mulheres, que muitas vezes precisam usar por longos períodos métodos hormonais com diversos efeitos colaterais.

Os primeiros resultados foram publicados em 2023 na revista Nature, em um estudo com camundongos. Uma única dose de um inibidor da sAC, batizado de TDI-11861, deixou os espermatozoides dos animais paralisados por até duas horas e meia. Os machos tratados não engravidaram as fêmeas, mesmo após 52 tentativas de acasalamento, enquanto no grupo que recebeu placebo quase um terço das parceiras engravidou.

O efeito também era temporário. Em 24 horas, os espermatozoides voltaram a se movimentar normalmente, e o comportamento sexual dos animais não foi alterado. Desde então, a equipe testou diferentes compostos para escolher um candidato adequado ao uso em pessoas.

O próximo passo é um ensaio clínico de fase 1, controlado por placebo, que avaliará a segurança da substância em um pequeno número de voluntários saudáveis. A expectativa é que o projeto dure cerca de quatro anos. Depois, as fases 2 e 3, com mais participantes, devem confirmar eficácia e segurança antes de uma eventual aprovação pelas agências sanitárias.

Por envolver medicamentos administrados a pessoas saudáveis, os estudos com contraceptivos são lentos e precisam atender a exigências rigorosas. As amostras de esperma dos grupos serão analisadas quanto à motilidade, ou seja, ao percentual de espermatozoides que nadam e à capacidade de deslocamento. O ensaio também medirá por quanto tempo dura o efeito de imobilização.

Hoje, nenhum método contraceptivo masculino está aprovado no mercado. Entre os que estão em desenvolvimento, a maioria exige comprimidos diários, gel aplicado todos os dias ou injeções de longa duração, além de levar semanas para fazer efeito. Pesquisas já realizadas indicam que entre 50% e 75% dos homens no mundo afirmam que usariam um método contraceptivo, o que reforça o interesse por alternativas.

Para o público, o recado é de cautela: a pílula sob demanda ainda está distante do uso clínico e o caminho até uma eventual aprovação é longo. Enquanto isso, quem busca contracepção deve conversar com um médico ou profissional de saúde sobre as opções disponíveis hoje.

Compartilhe:

Leia também