Crise Ueno Bank: entenda como o colapso do banco levou Santiago Peña a pedir renúncia
O colapso do Ueno Bank levou Santiago Peña a apresentar renúncia, provocou a saída do presidente do Banco Central e protestos no Paraguai.
Um banco digital que parecia estar em toda parte no Paraguai virou o centro de uma crise econômica e política. A crise Ueno Bank levou o presidente Santiago Peña a apresentar renúncia nesta sexta-feira (6), provocou a saída do presidente do Banco Central do Paraguai e levou protestos em massa às ruas do país.
Lançado em 2021, o Ueno foi comparado a bancos digitais em rápido crescimento, como Nubank, Monzo e Revolut. Segundo a própria empresa, em junho ela tinha cerca de 3 milhões de clientes em um país de 6,5 milhões de habitantes, e administrava aproximadamente 850 milhões de dólares em recursos públicos, vindos de instituições estatais e de órgãos ligados à previdência.
Para crescer, o banco ofereceu cashback em compras de supermercado, ampliou a rede para mais de 70 agências, patrocinou a seleção paraguaia de futebol e batizou o principal estádio do país, o Defensores del Chaco, em Assunção. A instituição era uma versão renomeada de uma financeira com décadas de existência e recebeu licença bancária em 2023.
Durante o governo de Peña, iniciado em 2023, parte do dinheiro público foi direcionada ao Ueno. O presidente também indicou Carlos Carvallo, presidente da financeira antecessora, para dirigir o Banco Central, órgão responsável por supervisionar o banco.
Ainda segundo a imprensa paraguaia, investigadores do Banco Central identificaram em junho um padrão de empréstimos de risco a pessoas ligadas ao banco, acima do permitido por lei e sem garantias suficientes. Em um único dia de setembro de 2025, quase 39 milhões de dólares foram destinados a três dessas empresas. Mesmo assim, Peña defendeu o banco e a supervisão do Banco Central e falou em campanha difamatória.
O colapso ocorreu na segunda-feira (2), quando órgãos reguladores encontraram operações de crédito mal documentadas e despesas registradas como ativos. Com a correção dos livros, o capital, reserva que os bancos devem manter para absorver perdas, caiu para menos da metade do mínimo legal. Na terça-feira (3), o Banco Central assumiu o controle da instituição.
Na prática, o aplicativo, os cartões e as transferências do Ueno pararam, e as agências fecharam. Clientes fizeram filas sem conseguir sacar suas economias. Na quarta-feira (4), a corrida por novas contas em outros bancos chegou a travar aplicativos de outras instituições. As autoridades afirmam ter começado a reembolsar depositantes e a abrir contas em outros bancos para cerca de 280 mil pessoas que tinham conta apenas no Ueno.
O presidente interino do Banco Central, Pedro Acosta Bernal, afirmou: “O sistema bancário está sólido”. Oito executivos de alto escalão foram detidos, entre eles o fundador Miguel Vázquez e o presidente do banco, Juan Manuel Gustale. O Ministério Público indiciou 27 funcionários e parceiros de negócios por crimes como abuso de confiança e tentativa de fraude.
Peña, próximo de Donald Trump e de Javier Milei, foi economista do Fundo Monetário Internacional e ministro da Fazenda entre 2015 e 2017. Ele também foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. Parlamentares da oposição o acusam de conflito de interesses, uso indevido de fundos de previdência e de ter encoberto as falhas do banco. Peña nega vínculos indevidos com a instituição.
Após perder apoio dentro do próprio partido, Peña apresentou a renúncia, mas o Congresso a rejeitou e abriu um processo de impeachment por unanimidade. No Paraguai, ex-presidentes se tornam senadores vitalícios, com imunidade parlamentar e direitos políticos. Para afastá-lo, a Câmara precisa de maioria de dois terços dos presentes para enviar o caso ao Senado, onde seria exigida nova maioria de dois terços.
Enquanto isso, clientes, estudantes, trabalhadores e aposentados ocupam as ruas, e parte das pensões era paga pelo banco agora falido. Centenas de funcionários do Ueno e de outras empresas do Grupo Vázquez protestaram em frente ao Ministério do Trabalho, cobrando indenizações e salários atrasados. No estádio Defensores del Chaco, o logotipo do banco já foi removido.



