Perereca amazônica tem padrão na íris que funciona como impressão digital
Estudo indica que a íris da perereca amazônica tem padrões exclusivos de cada indivíduo, o que pode dispensar marcações invasivas em pesquisas.
Dourados, grandes e com uma espécie de estampa preta, os olhos da Osteocephalus oophagus já chamam atenção à primeira vista. Agora, um estudo sugere que a perereca amazônica guarda uma característica ainda mais curiosa: a íris de cada indivíduo parece ter um padrão próprio, semelhante a uma impressão digital.
A espécie vive na Amazônia e pode ser encontrada no Brasil, na Colômbia, na Guiana e na Guiana Francesa. A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade de Berna, na Suíça, com contribuições da Universidade de Música e Artes Cênicas de Graz, na Áustria, e foi publicada na revista científica Herpetozoa.
O trabalho de campo foi feito entre 2021 e 2023, durante três períodos chuvosos, em uma ilha fluvial da Guiana Francesa. Os pesquisadores realizaram 392 capturas e identificaram 103 indivíduos. Nos reencontros, fotografaram os olhos de cada animal e compararam as imagens com uma biblioteca de referência, com apoio do software Wild-ID, usado para análise fotográfica de animais.
Os resultados mostraram que os padrões da íris são bastante distintos de um animal para outro. Dentro de um mesmo período, entre 56% e 80% das pererecas foram recapturadas e reconhecidas de forma confiável, o que indica que essas marcas são estáveis o bastante para acompanhar populações no curto prazo. Também foi possível fotografar animais em amplexo, o abraço de acasalamento, sem interrompê-los.
A motivação do estudo tem um lado ético. Para identificar anfíbios na natureza, pesquisadores costumam fazer cortes nos dedos, procedimento que pode prejudicar os animais, sobretudo os que dependem das patas para subir em árvores. Segundo a equipe, reconhecer indivíduos por características naturais pode reduzir o uso dessas técnicas mais invasivas.
A principal autora, Mélissa Peignier, começou a se interessar pelos olhos dessas pererecas enquanto estudava outra espécie na Guiana Francesa. A curiosidade inicial, segundo ela, deu lugar a um interesse genuíno pelo grupo, ao perceber o quanto ainda se sabe pouco sobre essas espécies.
Os autores ressaltam que a abordagem precisa ser adaptada a cada espécie e que ainda é preciso testar a viabilidade do método em outros contextos. Eles observam, porém, que outros anfíbios também possuem íris complexas, o que abre caminho para novas pesquisas. O caso mostra como a observação de detalhes da natureza pode ajudar a ciência a estudar animais sem causar danos.


