Eleições locais sul-africanas colocam o CNA sob pressão
Sul-africanos votam nesta quarta-feira (4) em eleições locais em que o CNA enfrenta queda de apoio e reclamações sobre serviços básicos.
As eleições locais sul-africanas acontecem nesta quarta-feira (4) para escolher vereadores e os governos de 257 municípios do país. A votação deve testar o Congresso Nacional Africano (CNA), principal partido do país, que enfrenta queda de apoio. Cerca de 29 milhões de eleitores estão registrados, e mais de 500 partidos disputam o pleito.
O CNA é o partido que conduziu Nelson Mandela ao poder em 1994, ao fim do regime de apartheid. Na eleição nacional de 2024, perdeu pela primeira vez desde então a maioria no Parlamento. Sua fatia de votos caiu de 70% em 2004 para cerca de 40% duas décadas depois, em meio a denúncias de corrupção, desemprego e criminalidade. O presidente Cyril Ramaphosa nega que a legenda esteja em declínio.
Pesquisas indicam nova perda para o partido. Um levantamento do instituto Ipsos aponta cerca de 30% das intenções de voto para o CNA, ante cerca de 46% na eleição local de 2021. A Aliança Democrática (DA), principal oposição, aparece com 25%, acima dos 22% da última disputa, sobretudo em Johannesburgo.
Nos bairros populares, a insatisfação é mais visível. Em Alexandra, township ao norte de Johannesburgo, moradores relatam lixo acumulado nas ruas, falta de água e de eletricidade e buracos no asfalto. A poucos quilômetros dali fica Sandton, um dos bairros mais ricos do continente, com arranha-céus e vias bem conservadas.
Há exceções à apatia. Um jovem de 18 anos que vota pela primeira vez disse à reportagem que pretende participar, na esperança de mudanças, enquanto a maioria dos amigos afirmou que não vai votar nem se registrou para isso. Em Soweto, outro moradores relatam que a água costuma faltar às segundas-feiras a partir das 14h.
Em Johannesburgo, a cidade mais rica do país, a crise de serviços é antiga. Segundo levantamentos citados pela imprensa local, a capital já teve dez prefeitos em dez anos, e a cidade enfrentou falta de água por mais de uma semana antes da eleição. Entre 2024 e 2025, apenas 39 entidades públicas do país receberam auditoria limpa, e nenhuma das três grandes cidades de Gauteng estava nessa lista.
A campanha da DA em Johannesburgo ganhou atenção com ações de grande repercussão, como a da ex-prefeita da Cidade do Cabo Helen Zille, que atravessou buracos de rua de caiaque e nadou em uma cratera. Parte dos eleitores, sobretudo negros, ainda desconfia da candidata por comentários antigos sobre o colonialismo.
Em eThekwini, que inclui Durban, o partido uMkhonto weSizwe (MK), do ex-presidente Jacob Zuma, aparece com boa votação nas pesquisas, mas pode não alcançar maioria e precisar de parceiros para governar. Já na Cidade do Cabo, a DA deve manter o controle, embora com percentual menor que o de 2021.
A comissão eleitoral tem sete dias para divulgar os resultados. Depois disso, os partidos têm cerca de duas semanas para formar os governos locais. Analistas preveem coalizões em boa parte das grandes cidades, e a aliança entre o CNA e a DA no governo nacional de união pode servir de modelo para algumas delas.



