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Câncer de pulmão avançado: comprimido diário mantém doença controlada por sete anos

Comprimido diário manteve câncer de pulmão avançado sob controle por sete anos em mais da metade dos pacientes de estudo clínico.

Por Roberto Andrade ·
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Pulmões estilizados em tons de verde-azulado com um comprimido grande em diagonal, ao lado de um selo circular laranja com símbolo de verificação, sobre fundo verde-claro.
Ilustração: Repórter Capixaba

Um comprimido tomado uma vez por dia conseguiu manter o câncer de pulmão avançado sob controle por sete anos em mais da metade dos pacientes que participaram de um estudo clínico. O resultado é considerado inédito para a doença e foi obtido com o lorlatinibe, medicamento desenvolvido para tumores que apresentam alteração genética específica.

O levantamento foi publicado em setembro de 2026 na revista científica Annals of Oncology e traz a atualização de sete anos do ensaio clínico de fase 3 CROWN. Segundo os dados, 55% dos pacientes tratados com o lorlatinibe seguiam vivos e sem progressão da doença após esse período.

Foram acompanhadas 296 pessoas com câncer de pulmão de não pequenas células avançado e positivo para a alteração genética ALK. Desse total, 149 receberam o lorlatinibe e 147 foram tratadas com o crizotinibe, outro medicamento usado contra esse subtipo de tumor.

No grupo que recebeu o lorlatinibe, a mediana de sobrevida livre de progressão ainda não havia sido alcançada após sete anos. No grupo do crizotinibe, esse indicador foi de 9,1 meses, e a probabilidade de seguir vivo e sem progressão após sete anos foi de 3%. Os pesquisadores também calcularam redução de 81% no risco de progressão da doença ou morte com o lorlatinibe.

Uma característica apontada pelos pesquisadores é a capacidade do medicamento de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e dificulta a entrada de muitas substâncias. Isso é relevante porque pacientes com a doença avançada podem desenvolver metástases cerebrais, e o lorlatinibe foi projetado para atuar também nesses casos.

Segundo o estudo, não foram registrados novos episódios de progressão intracraniana depois dos primeiros 30 meses de tratamento. Entre os pacientes que chegaram ao fim dos dois primeiros anos sem progressão, a probabilidade estimada de seguir vivos e sem avanço do câncer no sétimo ano foi de 79%.

A comparação com gerações anteriores ajuda a dimensionar o avanço. Durante décadas, a quimioterapia era uma das principais opções para o câncer de pulmão avançado. Com o desenvolvimento dos inibidores de ALK, os médicos passaram a contar com tratamentos mais direcionados, capazes de prolongar o controle da doença.

Segundo o oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, a evolução aparece nos resultados de cada geração de medicamentos. “Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%.”

Há, porém, ressalvas. Os dados de sobrevida global ainda não estão maduros, pois o estudo não acumulou o número de mortes necessário para a análise definitiva desse indicador. Por isso, os resultados mostram controle prolongado da doença, mas não permitem afirmar que o medicamento seja uma cura.

Os efeitos adversos também pesam na avaliação. Eventos de grau 3 ou 4 foram registrados em 77% dos pacientes que receberam o medicamento, e, na maioria dos casos, esses eventos não significam necessariamente que foram provocados diretamente pelo tratamento. Além disso, 34% dos participantes precisaram reduzir a dose em algum momento, sem diferença na eficácia de longo prazo em relação aos que não precisaram dessa alteração.

Reações no sistema nervoso central podem ocorrer em 52% dos pacientes que recebem o lorlatinibe, segundo dados reunidos em diferentes estudos. Entre as manifestações estão alterações cognitivas, mudanças de humor, problemas de fala, distúrbios do sono e, em alguns casos, sintomas psiquiátricos mais graves. Na análise de cinco anos do estudo CROWN, esses efeitos foram registrados em 42% dos participantes, e a maioria foi classificada como leve ou moderada.

Paula Piteri ilustra essa realidade. Ela tinha 38 anos quando descobriu, em 2020, durante um exame de rotina, que um nódulo no pulmão era câncer. Sem histórico de tabagismo, passou por cirurgia e acreditou estar livre da doença, mas em 2025 recebeu um novo diagnóstico: o câncer havia voltado. Atualmente, ela usa o lorlatinibe, fornecido pelo plano de saúde, e afirmou: “É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver.”

No Brasil, o acesso ao medicamento ainda é um desafio. Antes de iniciar o tratamento, o paciente precisa confirmar a alteração ALK por meio de exames moleculares, que nem sempre estão disponíveis na rede pública ou são facilmente acessíveis pelos planos de saúde. Schvartsman resumiu a questão: “Não adianta fazer o teste num sistema em que o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto.”

O preço também é um obstáculo. Segundo a tabela de preços de medicamentos, uma caixa com 30 comprimidos pode chegar a cerca de R$ 37 mil. Em um tratamento contínuo de sete anos, o custo ultrapassaria R$ 3,1 milhões por paciente, sem considerar eventuais reajustes ou descontos.

A incorporação do lorlatinibe ao Sistema Único de Saúde chegou a ser analisada pela Conitec. Em maio de 2025, o Ministério da Saúde publicou decisão contrária à disponibilização do medicamento na primeira linha de tratamento para o câncer de pulmão com alteração ALK em estágio localmente avançado ou metastático. Segundo o relatório, os valores não atingiram os critérios de custo-efetividade considerados adequados para o SUS.

Com isso, pacientes que precisam do lorlatinibe dependem de planos de saúde, compra particular ou decisões judiciais para obter o tratamento.

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