Água-viva fantasma gigante é flagrada com cardume de peixes ao redor do corpo
Pesquisadores registraram, no oceano profundo da costa argentina, juvenis de peixe-timão acompanhando uma água-viva fantasma gigante.
Nas águas escuras do oceano, peixes pequenos dependem de qualquer proteção para sobreviver. Agora, pesquisadores flagraram uma situação rara: uma água-viva fantasma gigante (Stygiomedusa gigantea) nadando acompanhada de juvenis de peixe-timão (Centrolophus niger), que se movimentavam sob o sino e entre os longos braços do animal.
A observação foi feita por um veículo operado remotamente (ROV) durante um mergulho em águas mesopelágicas, a cerca de 250 metros de profundidade, na costa da Argentina. Segundo a equipe, liderada pela ecologista marinha María Emilia Bravo, da Universidade de Buenos Aires, trata-se do primeiro registro documentado dessa associação no oceano profundo.
Os cientistas suspeitavam dessa relação há mais de 50 anos. Em 1973, pesquisadores já haviam sugerido a ligação depois que exemplares apareceram juntos em capturas de arrasto no Atlântico Norte, mas, sem observar os animais vivos em seu ambiente natural, não era possível confirmar.
A espécie está entre as maiores águas-vivas do mundo. O sino pode passar de um metro de diâmetro e sustenta quatro braços orais que podem ultrapassar 10 metros. Apesar do tamanho, o animal é raramente visto: o primeiro exemplar foi coletado em 1899 e, desde então, foram registrados menos de 120 avistamentos ao redor do mundo.
Essa dificuldade de observação vem sendo superada com o uso de ROVs, equipamentos capazes de atingir profundidades que são muito difíceis para mergulhadores. Em vez de apenas trazer criaturas à superfície, eles permitem acompanhar o comportamento dos animais em seu ambiente, revelando interações que poderiam passar despercebidas.
A descoberta veio de uma expedição realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, a bordo do navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute. A equipe usou o ROV SuBastian em uma série de mergulhos ao longo da margem argentina, que permitiram pesquisas inéditas em ecossistemas de águas profundas, incluindo 28 espécies que podem ser novas para a ciência.
Durante um dos mergulhos, a água-viva fantasma gigante foi vista à deriva na penumbra, com seus braços acompanhando a correnteza. Ao redor dela havia cerca de 19 pequenos peixes azul-acinzentados, que nadavam entre os braços e entravam e saíam do sino.
Para os pesquisadores, esse abrigo pode proteger os peixes de predadores que atacam a partir da escuridão, vindo de qualquer direção. O tamanho e os braços compridos da água-viva também podem funcionar como barreira para predadores que, de outra forma, caçariam os peixes menores.
A relação, porém, ainda não está clara. Um dos peixes foi visto mordiscando um dos braços orais da água-viva, mas a equipe não conseguiu determinar o que ele comia. Pode ter sido alimento capturado pelo animal, parasitas ou pequenos organismos da superfície, ou até mesmo parte do próprio corpo da água-viva.
A dúvida central é se a associação beneficia os dois lados ou se o peixe apenas aproveita um hospedeiro grande e tolerante. Em outros casos, peixes que vivem com águas-vivas ajudam removendo parasitas em troca de alimento e abrigo, mas, neste caso, os pesquisadores não conseguiram verificar se a água-viva ganha algo com a presença deles.
Outros registros ajudam a entender o contexto. No Hemisfério Norte, adultos de outra espécie de peixe, Thalassobathia pelagica, já foram vistos abrigados junto a águas-vivas gigantes, alimentando-se de seus parasitas. Já os juvenis de peixe-timão foram observados associados à água-viva-barril (Rhizostoma pulmo) em águas rasas do Mar Adriático.
Para além da curiosidade, o achado sugere que as relações entre espécies no oceano podem ser mais flexíveis do que se imaginava, variando conforme as condições locais e os parceiros disponíveis. Segundo os autores do estudo, a questão sobre se a associação oferece apenas refúgio ou também envolve benefícios alimentares ou mútuos segue sem resposta, mas observações como essa ajudam a formular novas hipóteses sobre a história natural oculta de espécies de águas profundas.
O trabalho foi publicado na revista Ecology.


