Jet lag em aves: pardelas-de-Manx também sentem efeito de voos rápidos entre fusos horários
Estudo publicado na Science indica que pardelas-de-Manx sofrem com o jet lag, desviando levemente a rota ao voar rápido em direção ao leste.
Atravessar vários fusos horários em pouco tempo costuma desregular o relógio interno das pessoas. Agora, uma pesquisa sugere que o jet lag em aves também existe, e que as pardelas-de-Manx podem sentir o efeito por voarem em alta velocidade.
O estudo foi publicado no dia 29 de outubro na revista Science. Segundo os pesquisadores, os relógios internos dessas aves podem sair de sincronia com o horário local. Esse descompasso confunde a bússola solar que elas usam, fazendo com que se desorientem levemente e voem um pouco fora da rota.
As pardelas-de-Manx são aves marinhas de porte médio, com o dorso preto e a barriga branca. Passam a maior parte da vida sobrevoando o oceano aberto. No fim do inverno e no início da primavera, cerca de 80% da população mundial retorna às ilhas íngremes e gramadas da costa oeste do Reino Unido para se reproduzir.
Nessas ilhas, os casais se reencontram e fazem ninhos em tocas subterrâneas. Cada fêmea põe um único ovo. Enquanto os filhotes crescem, os adultos saem para pescar arenque, sardinha e espadilha, que levam de volta ao ninho. Aves que nidificam perto do Reino Unido costumam percorrer mais de 960 quilômetros (cerca de 600 milhas) a oeste das ilhas, até as águas ricas em alimento do Mar da Irlanda e do Atlântico Nordeste. Depois de se alimentarem, voltam para leste até as colônias.
Os cientistas acreditam que essas aves usam o sol como bússola, ajustando a direção do voo conforme a posição dele no céu. A leitura exige saber a hora do dia, já que a posição do sol muda ao longo das horas por causa da rotação da Terra. Por isso, os relógios internos são essenciais para que elas se mantenham na rota, explica o ecólogo Patrick Lewin, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Oxford.
A hipótese era de que, ao cruzarem o oceano em direção ao leste, os relógios internos não acompanhariam a mudança do horário local, o que afetaria a bússola solar e a precisão da navegação. Para testar a ideia, a equipe analisou 20 anos de dados de rastreamento por GPS de 1.045 pardelas selvagens em reprodução. Foram 3.688 viagens entre os locais de reprodução e de alimentação; dessas, 1.837 eram trajetos de volta para casa no sentido leste.
Como previsto, as aves se desviaram no sentido horário em até 15 graus durante esses voos. Os pesquisadores consideraram outros fatores, como a força dos ventos laterais e a distância da colônia, mas o efeito da bússola solar foi o que melhor explicou as mudanças na orientação, segundo Lewin.
Um dado surpreendeu a equipe: as aves continuaram se desviando mesmo quando voavam junto às costas. Isso indica que elas combinam várias pistas para navegar e seguem usando mais de um método mesmo quando as informações entram em conflito.
A cronobióloga Sangeeta Rani, da Universidade de Lucknow, que não participou do estudo, vê a descoberta com bons olhos. Segundo ela, a capacidade de cruzar sinais diferentes e encontrar o caminho de volta pode ser útil no futuro, quando mudanças climáticas e a ocupação humana tornarem paisagens conhecidas irreconhecíveis.
Na prática, os desvios têm pouco impacto. Os pesquisadores calcularam que, em uma viagem de cerca de 1.000 quilômetros (aproximadamente 620 milhas), um erro de sete graus acrescenta apenas cerca de 5 quilômetros ao trajeto. Por isso, a equipe acredita que a seleção natural não tenha favorecido uma forma de evitar o jet lag nessas aves.
O estudo se concentrou nas pardelas, mas os pesquisadores suspeitam que outros animais que percorrem longas distâncias, como outras espécies de aves, alguns morcegos e insetos, também possam sofrer com o efeito. Já as migrações de aves costumam seguir rotas norte-sul, por isso provavelmente não são afetadas, segundo Ken Cheng, professor emérito de cognição comparada da Universidade Macquarie, que não participou da pesquisa.
O próximo passo é entender se e como o jet lag afeta essas aves. Lewin questiona se elas perdem momentos críticos de comportamento ou sofrem efeitos fisiológicos semelhantes aos dos humanos. Segundo ele, aves que viajam longas distâncias com frequência podem ajudar a entender como lidar com o jet lag e reduzir seus efeitos negativos sobre a saúde.



