Hospitais no Sudão foram alvos deliberados de paramilitares, aponta investigação
Levantamento aponta pelo menos 43 ataques a unidades de saúde em El-Fasher entre 2024 e 2025; a RSF rejeita as conclusões.
Uma investigação jornalística identificou pelo menos 43 ataques a hospitais no Sudão, todos em El-Fasher, no Darfur, entre maio de 2024 e outubro de 2025. Segundo o levantamento, baseado em fontes que estavam na cidade durante o cerco, algumas unidades foram atingidas mais de uma vez.
O trabalho também mostra o impacto sobre os profissionais de saúde. De abril de 2023 a outubro de 2025, os dados apontam 120 feridos, 55 mortos e 10 desaparecidos ou sequestrados entre trabalhadores da área médica na cidade.
As Forças de Apoio Rápido (RSF) rejeitaram as conclusões. O ministro da Saúde do governo civil ligado ao grupo, Alaa Eldin Nugud, classificou as acusações como propaganda e afirmou que se trata de uma tentativa deliberada do Exército e de seus aliados de manchar a reputação da milícia.
O alto comissário da ONU para os direitos humanos, Volker Türk, considerou as descobertas “profundamente perturbadoras”. Ele afirmou que os ataques reiterados da RSF contra infraestrutura civil, incluindo unidades de saúde, são graves violações do direito internacional humanitário e podem configurar crimes de guerra.
Segundo os relatos, o Hospital Sul foi bombardeado no fim de maio e no início de junho de 2024, e em 8 de junho foi invadido por combatentes. Um cirurgião contou ter sido agredido e ter fingido estar morto para sobreviver. Médicos também afirmaram que o Hospital Saudita foi atingido repetidas vezes, em alguns dias até 25 vezes, com bombardeios e drones.
Com o fechamento de unidades menores e a mudança de endereço de algumas delas, os locais alternativos também passaram a ser atacados. Em 15 de março de 2025, segundo um médico, um drone atingiu o portão de um prédio usado como ala temporária, quando pessoas levavam feridos, e matou nove pessoas.
Em 25 de outubro de 2025, a RSF invadiu o Hospital Saudita, último serviço de saúde em funcionamento na cidade, em meio a denúncias de um massacre que teria matado mais de 460 pacientes e acompanhantes. O grupo nega que tenha havido massacre. A Organização Mundial da Saúde condenou as mortes relatadas, e imagens de satélite pareciam mostrar aglomerados de corpos no terreno do hospital.
Antes disso, em março de 2026, a OMS havia condenado o bombardeio do hospital de al-Daein, no Darfur Oriental, controlado pela RSF, que matou dezenas de pessoas. O Exército é apontado como responsável pelos ataques com drones, mas nega a autoria. A organização classificou El-Fasher como um dos exemplos mais claros e graves do impacto da guerra sobre a saúde no país.
Hoje, o sistema de saúde da cidade é administrado pelo governo ligado à RSF, que divulgou vídeos de hospitais reabertos. A guerra civil, iniciada em abril de 2023 entre a RSF e o Exército, não tem previsão de solução, e os ataques a unidades de saúde seguem em curso.


