Derretimento de geleiras expõe munições da Primeira Guerra Mundial nos Dolomitas italianos
Calor recorde derreteu geleiras nos Dolomitas italianos e expôs cerca de 250 explosivos da Primeira Guerra, recolhidos pelo Exército.
O calor recorde do verão deixou à mostra, nas altas montanhas dos Dolomitas, no norte da Itália, centenas de explosivos deixados para trás durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo balanço divulgado pelo Exército Italiano, cerca de 250 artefatos foram recolhidos e desativados ao longo da temporada.
As peças apareceram em encostas de alta altitude e em geleiras que estão recuando na região do Trentino-Alto Adige. Muitas foram avistadas e comunicadas por alpinistas e caminhantes, que passaram a relatar os achados às autoridades com mais frequência.
Um dos casos mais inusitados aconteceu em junho, quando bombeiros foram chamados para retirar um carro que havia rolado para uma ravina porque o motorista esqueceu de acionar o freio de mão. Durante o resgate, os socorristas encontraram um projétil de morteiro de 90 milímetros que não havia explodido. A ocorrência marcou o início da temporada de limpeza da brigada alpina Julia, do Exército.
Os especialistas trabalharam até meados de outubro em cumeadas de grande altitude, em áreas como as geleiras Carè Alto e Lares, no grupo Adamello-Brenta, além da região de Cima Tre Cannoni e da geleira Livrio, na região do Stelvio. Entre as peças retiradas estavam granadas de mão, projéteis de artilharia de 75 milímetros e granadas de morteiro de fabricação francesa do modelo Thevetot.
Os achados são resquícios da chamada “Guerra Branca”, travada entre 1915 e 1918 por tropas austro-húngaras e italianas em altitudes que, em alguns pontos, ultrapassavam 3.000 metros. Os soldados abriram túneis diretamente no gelo, içaram canhões pesados por paredões verticais e enfrentaram temperaturas extremas. Estima-se que o conflito tenha matado cerca de 180 mil pessoas, a maioria por hipotermia, quedas e avalanches, que causaram mais mortes do que os disparos inimigos.
Quando as hostilidades terminaram, no fim de 1918, os dois lados deixaram para trás grandes quantidades de armamento e também corpos de soldados. Tudo foi coberto pela neve de inverno e preservado pelo gelo glacial. Em 2015, o derretimento perto do cume do Monte Scorluzzo revelou um alojamento de madeira construído dentro de uma caverna natural, a cerca de 3.100 metros de altitude. Lacrado desde novembro de 1918, o abrigo estava quase intacto, com palha, lanternas, uniformes, latas de comida, cartões-postais e jornais.
Alpinistas encontram relíquias de guerra desde os anos 1990, mas o ritmo e o volume das descobertas aumentaram muito com as mudanças climáticas. Segundo o historiador Stefano Morosini, da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos de patrimônio do Parque Nacional de Stelvio, a combinação de pouca neve no inverno de 2025 com o verão escaldante de 2026 acelerou a perda de gelo no norte da Itália. Ele afirma que “a cada ano há mais peças aparecendo no fim do verão” e que muitas ainda não explodiram, o que as torna perigosas.
Retirar explosivos centenários em ambientes alpinos é um desafio logístico. Em um ponto, um conjunto de projéteis de 75 milímetros obrigou as autoridades a interditar temporariamente uma trilha muito procurada entre o pico Cima del Frate e o passo Forcella Fierollo. As operações contaram com equipes de helicópteros especializados, bombeiros voluntários, a Cruz Vermelha e o ramo de resgate em montanha da Guardia di Finanza. Em muitos trechos, os militares precisaram usar equipamentos de transporte aéreo e roupas de proteção pesadas para levar as peças instáveis até locais seguros de detonação.
Morosini também chama atenção para os riscos das trilhas, já que o recuo das geleiras torna as caminhadas em alta altitude mais perigosas. Ele lembra o desabamento da geleira Marmolada, em 2022, que matou 11 pessoas. “Quem visitar a região pode ver como as geleiras estão recuando rapidamente e como o impacto das mudanças climáticas é forte”, afirma.



