Crise de combustível no Malawi obriga motoristas a passar dias em filas de postos
No Malawi, a falta de divisas estrangeiras provoca filas de até uma semana em postos de combustível, com motoristas dormindo nos veículos e tarifas em alta.
A crise de combustível no Malawi chegou a um nível de emergência nacional nas últimas quatro semanas, e motoristas passam dias dentro dos próprios veículos à espera de caminhões-tanque que, em alguns casos, podem nunca chegar. No posto Meru, em Zomba, antiga capital do país, a fila se estende por quase um quilômetro e transformou o local em uma espécie de acampamento improvisado.
Sido Sombeja, de 40 anos e pai de quatro filhos, está há oito dias e noites seguidos dentro de sua van. Sem outra opção de alimentação, ele tem comido bolinhos fritos vendidos na região. Os motoristas se revezam para vigiar os carros durante as poucas pausas para ir ao banheiro e se organizam para impedir que outras pessoas furem a fila. Muitos dormem embaixo dos caminhões, lavam o rosto com água mineral na calçada e se reúnem à noite ao redor de braseiros, conhecidos localmente como mbaula.
“Isto não é mais um posto de combustível”, disse Sombeja. “É a minha casa agora. Tenho duas famílias: a que está em casa, esperando que eu leve dinheiro, e esta segunda família de desconhecidos na estrada, onde preciso comprar lanches só para sobreviver à noite.”
Segundo a Companhia Nacional de Petróleo do Malawi, a origem do problema está na falta de moeda forte no país. Em uma apresentação feita em 2 de outubro à comissão parlamentar de orçamento, técnicos do setor informaram que o aumento do uso de veículos fez o país consumir 2 milhões de litros de combustível por dia, o que exige US$ 49 milhões por mês em divisas estrangeiras.
De acordo com Joan Thaundi, porta-voz do Ministério de Energia, o setor de petróleo disputa dólares americanos escassos com outros produtos. Como as exportações agrícolas caíram, bancos internacionais têm deixado de honrar cartas de crédito emitidas por instituições locais, e os caminhões-tanque acabam retidos em portos regionais da África antes mesmo de entrar no Malawi.
Para conter o pânico, o governo afirma ter adotado medidas excepcionais. Fitina Khonje, gerente de relações públicas da Autoridade Reguladora de Energia do Malawi, disse que a compra de combustível é prioridade, mas que o déficit de caixa do país continua sendo um obstáculo. Segundo a reportagem, o governo vendeu parte de suas reservas de ouro para obter crédito de curto prazo com credores internacionais e retirou das ruas veículos oficiais não essenciais, para preservar o combustível restante para operações básicas.
Nos postos, essas explicações têm pouco efeito sobre uma população cansada. Em Lilongwe, o frentista WillKens Chimwaza, de 26 anos, disse que a capacidade diária do posto Petroda caiu de 30 mil litros para 5 mil. Quando o combustível acaba, geralmente em menos de uma hora após a chegada de um caminhão-tanque, a tensão aumenta. Chimwaza afirmou que os funcionários costumam ser cercados e ameaçados por motoristas irritados e que, para evitar confusão, recebem ordens para limitar a quantidade vendida a cada cliente.
O impacto também chega ao transporte público. Gift Ngala, de 34 anos, taxista em Mzuzu, disse que precisa comprar combustível de vendedores à beira da estrada, por preços mais altos, para manter o carro em funcionamento. Com isso, as tarifas cobradas dos passageiros subiram, o que pesa sobre o orçamento de famílias de baixa renda.
Sombeja pede que as autoridades parem de politizar a distribuição de recursos e garantam a estabilidade do abastecimento. “Estamos lutando para atender às nossas necessidades básicas”, disse. “Eles precisam garantir que o combustível chegue para que possamos voltar ao trabalho.”
Ao amanhecer, o posto Meru reúne centenas de motoristas que saem dos carros para se alongar, mas nenhum caminhão-tanque havia chegado. Sombeja verificou mais uma vez o marcador de combustível vazio e voltou ao banco do motorista para iniciar o nono dia de espera.


