Vitória, sábado 31 de outubro de 2026
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Artistas sudaneses perdem estúdios, mas tentam preservar a cultura do Sudão em meio à guerra

Deslocados pela guerra no Sudão, artistas de Port Sudan perderam ateliês e ferramentas, mas seguem criando e preservando a cultura do país.

Por Roberto Andrade ·
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Ateliê improvisado com cavalete que exibe uma tela de padrões geométricos coloridos, cercado por pincéis, paleta, potes de tinta, um tapete enrolado e uma mala, sob um céu de entardecer com pássaros e o mar Vermelho ao fundo.
Ilustração: Repórter Capixaba

Quando a guerra chegou a Cartum, o artista visual e diretor de teatro Awad Haroun, de 45 anos, perdeu grande parte do que havia construído. Ele deixou para trás a casa, o espaço de trabalho e as ferramentas que usava para criar e fugiu com a mulher e o filho para Port Sudan, no Mar Vermelho. Como muitos artistas sudaneses, ele achava que a saída seria temporária, mas já passou mais de dois anos longe de casa.

Os combates entre o Exército do Sudão e as Forças de Apoio Rápido, grupo paramilitar, começaram em abril de 2023. Awad saiu de Al-Halfaya, em Cartum Norte, levando apenas duas camisetas, duas calças, dois livros e alguns desenhos rasgados. Além da casa, perdeu os materiais com os quais trabalhava e ganhava o sustento.

Na nova cidade, ele passou a oferecer serviços em escultura, design e decoração para conseguir algum dinheiro. Também participou de apresentações teatrais no Festival Wasel, organizado pelo grupo cultural Ahalina em parceria com a Unesco, e conduziu oficinas de artes tradicionais com coletivos culturais locais. O Ahalina foi fundado por Awad em 2013, com um grupo de jovens, e usa teatro, artes visuais, música e fantoches para promover a paz e a coesão social.

As atividades com crianças são uma parte importante desse trabalho. Desenho, contação de histórias, música e brincadeiras dão a elas oportunidades de se expressar e de criar vínculos com outras pessoas, em um período marcado pela perda de casa e de rotina.

Awad e outros artistas deslocados encontraram abrigo em uma antiga escola de Port Sudan, onde ajudaram a limpar e preparar o prédio para receber famílias que também haviam saído de suas casas. “Perder minhas ferramentas não significa que perdi minhas habilidades, e perder meu espaço de trabalho não significa que perdi a capacidade de criar”, disse Awad. Ele também relatou preocupação com a possibilidade de despejo, o que deixou o grupo sem saber para onde ir em seguida.

O cenário é difícil. A guerra causou danos a sítios de patrimônio e desarticulou a vida cultural do país. Em junho de 2026, a Unesco estimou que o setor cultural sudanês tinha uma lacuna de financiamento de US$ 30 milhões. Por trás do número estão perdas pessoais, como artistas mortos pelo conflito e outros que tiveram de deixar para trás estúdios, galerias, obras e equipamentos.

Mesmo assim, iniciativas culturais continuaram. Segundo a Unesco, em abril de 2024, o Sindicato de Artistas e Escritores de Port Sudan havia abrigado mais de 112 artistas deslocados e outros profissionais da cultura. Em abril de 2026, a agência afirmou que suas ações na cidade beneficiaram mais de 350 artistas, mulheres, meninas e profissionais culturais deslocados internamente.

A história de Asim Abdelaziz, de 31 anos, músico e cineasta, mostra outra face desse deslocamento. Ele deixou El Obeid, capital do estado de Kordofan do Norte, em meio a combates intensos e ataques repetidos com drones, e chegou a Port Sudan em novembro de 2023. Longe da família, que está dividida entre Omdurman e El Obeid, ele vive sozinho em um abrigo para artistas. Mesmo assim, segue usando a música para preservar a herança cultural do país.

Asim trabalha com o sindicato local, a Unesco e organizações comunitárias, e também colabora com o Ministério da Cultura e Informação em programas musicais contra discurso de ódio e racismo. Segundo ele, a guerra alimentou a intolerância e aprofundou divisões entre os diferentes grupos do país. “Através da música, tento lembrar os sudaneses de que somos todos irmãos e irmãs, e que a guerra não representa quem somos”, afirmou. Seu projeto Mokhalaya, criado há um ano para documentar e arquivar músicas e ritmos tradicionais de diferentes regiões, é uma dessas frentes, e ele pretende levá-lo a festivais internacionais.

Para Abdelqader Hashem, secretário do Sindicato de Artistas e Escritores do Estado do Mar Vermelho, a entidade tem apoiado artistas e suas famílias desde o início da guerra. Além do abrigo, o sindicato ajuda os deslocados a participar da vida cultural da cidade e de campanhas sobre temas como o uso de drogas, uma preocupação crescente no Sudão. Em parceria com a Unesco, também há projetos de capacitação de crianças em campos de deslocados, incluindo trabalhos manuais com concreto.

Segundo Hashem, a maior parte dos artistas deslocados já voltou para casa em Cartum, após a recaptura da capital pelo Exército. Para quem ainda vive em abrigos, porém, a arte segue sendo uma forma de manter a identidade e a esperança diante de uma crise que ainda não tem fim previsto.

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