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Financiamento para adaptação climática segue muito abaixo das necessidades, aponta ONU antes da COP31

Relatório da ONU aponta que o financiamento para adaptação climática cobre apenas cerca de 30% das necessidades antes da COP31, na Turquia.

Por Roberto Andrade ·
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Imagem ilustrativa. Foto: Mike Pennington / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O financiamento para adaptação climática segue muito abaixo do necessário para proteger os países mais vulneráveis dos impactos do aquecimento global. É o que mostra o Relatório sobre a Lacuna de Adaptação da ONU, divulgado nesta quarta-feira (4), a poucos dias da abertura da COP31, na Turquia. Segundo a edição de 2026, mesmo no cenário mais otimista, apenas cerca de 30% das necessidades atuais estariam sendo atendidas.

Entre 2023 e 2024, o financiamento público global destinado à adaptação nos países em desenvolvimento aumentou em US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões). Com isso, o total chegou a algo entre US$ 28 bilhões e US$ 31 bilhões (entre R$ 154 bilhões e R$ 170,5 bilhões) em 2024.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), seriam necessários US$ 305 bilhões por ano (R$ 1,68 trilhão) até 2035 para responder de forma adequada aos desafios climáticos.

Para chegar a essa estimativa, os autores analisaram as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e os planos nacionais de adaptação de 155 países em desenvolvimento. A necessidade anual para a próxima década ficou entre US$ 255 bilhões e US$ 328 bilhões. Corrigido pela inflação, o montante chega a US$ 420 bilhões por ano (R$ 2,31 trilhões) e poderia dobrar se as necessidades do setor privado fossem incluídas.

A COP31, marcada para ocorrer entre 9 e 20 de novembro, terá o desafio de produzir avanços concretos para reduzir essa lacuna. Na COP30, realizada em Belém, a adaptação foi apresentada como prioridade, mas a conferência deixou a sensação de oportunidade perdida, sobretudo no financiamento.

O acordo firmado em Belém prevê a “triplicação” dos recursos para adaptação, mas não define a base de cálculo nem o ano de referência. Na prática, não há um valor concreto estabelecido. Para os países que defendem a leitura mais conservadora, a triplicação corresponderia a US$ 60 bilhões (R$ 330 bilhões), com base nos US$ 20 bilhões anuais previstos em 2019.

Essa estimativa é contestada por especialistas e instituições como o World Resources Institute. Eles lembram que o Pacto Climático de Glasgow já previa a duplicação dos recursos, para US$ 40 bilhões em 2025, e que a triplicação deveria partir desse patamar, chegando a cerca de US$ 120 bilhões (R$ 660 bilhões).

Mesmo com US$ 120 bilhões por ano, o valor representaria apenas cerca de 30% dos US$ 420 bilhões considerados necessários. Em seu relatório, a ONU evita tomar posição sobre a controvérsia, por se tratar de tema ainda em negociação.

Os custos dos eventos extremos já pressionam até economias desenvolvidas. Na França, as perdas do setor agrícola após um verão de calor extremo e seca são estimadas em até € 10 bilhões (R$ 63 bilhões). Na Jamaica, atingida pelo ciclone Melissa há um ano, parte da infraestrutura foi destruída em apenas uma noite.

Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, afirmou que “o mundo não está preparado para se adaptar às condições climáticas atuais”, lembrando que o mundo já ultrapassou o marco de 1,5°C de aquecimento, segundo o Relatório sobre a Lacuna de Emissões divulgado em 21 de outubro. Cada décimo de grau adicional amplia a frequência e a intensidade de ondas de calor, tempestades, secas e inundações.

Os fundos climáticos também seguem subfinanciados. O Fundo de Adaptação desembolsou apenas US$ 1,6 bilhão (R$ 8,8 bilhões) desde 2010. Já o Fundo para Perdas e Danos recebeu, na primeira chamada de projetos, pedidos que somavam US$ 2,8 bilhões, muito acima dos US$ 342 milhões inicialmente disponíveis.

A ONU reconhece avanços: em 2024, cerca de 90% do apoio aos países menos desenvolvidos veio na forma de doações ou empréstimos altamente concessionais. Ainda assim, o relatório estima que o financiamento privado cobriria apenas entre 15% e 20% das necessidades, e a Oxfam critica que ele se concentra em projetos rentáveis, deixando de lado áreas como saúde e proteção social.

O Objetivo Coletivo Quantificado de Financiamento Climático, aprovado na COP29, prevê a mobilização de US$ 300 bilhões por ano até 2035, e países desenvolvidos já indicaram que qualquer aumento para adaptação deverá caber nesse teto. Diplomatas e especialistas consideram pouco provável uma mudança significativa na COP31, a menos que haja uma reviravolta nas negociações.

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