Sistema imunológico precisa de equilíbrio, não de reforço, alertam pesquisadores sobre tendências online
Pesquisadores alertam que a ideia de reforçar o sistema imunológico é equivocada e que muitos produtos vendidos com essa promessa não têm comprovação científica.
Smoothies verdes, sopas, suplementos e até promessas de “células-tronco” para “turbinar” o sistema imunológico circulam com força nas redes sociais. Pesquisadores de saúde pública alertam, porém, que a ideia de reforçar a imunidade pode atrapalhar mais do que ajudar.
Receitas, livros de nutrição e clínicas naturopáticas usam com frequência expressões como “imunidade superpoderosa” e dicas de “reforço” imunológico. O termo se tornou tão comum que aparece até em conteúdos de instituições acadêmicas respeitadas.
A pandemia de covid-19 aumentou o interesse do público pelo assunto. Uma equipe de pesquisadores analisou resultados de buscas no Google e publicações no Instagram sobre o tema e identificou dois problemas: conteúdos com imprecisões sobre como o sistema imunológico funciona e a divulgação de produtos e serviços sem eficácia comprovada.
Os autores ressaltam que nem todo conteúdo sobre imunidade é prejudicial. Orientações de centros de pesquisa e de organizações de saúde, que defendem alimentação equilibrada, atividade física, sono de qualidade e a redução do cigarro e do álcool, são consideradas úteis. O problema está na ideia de “reforçar” a imunidade, que, segundo eles, é conceitualmente equivocada: o sistema precisa ser mantido, e não potencializado.
O sistema imunológico é complexo e atua de duas formas. A resposta inata age de maneira geral para barrar invasores, com a pele e as mucosas como primeira barreira. Já a resposta adaptativa é específica: as células B produzem anticorpos, proteínas que marcam ou neutralizam germes, enquanto as células T atacam células já infectadas. Esse processo também cria células de memória, que reconhecem rapidamente um invasor que retorna ao corpo.
O equilíbrio é o ponto central. Um sistema com desempenho insuficiente aumenta a chance e a gravidade de infecções, mas um sistema hiperativo pode levar a doenças autoimunes, como artrite reumatoide e esclerose múltipla. Por isso, o objetivo é manter o funcionamento adequado, e não ampliá-lo.
Para os pesquisadores, a lógica do “reforço” funciona como estratégia de marketing: cria-se a sensação de que a saúde sempre pode melhorar, gera-se insegurança e, em seguida, oferece-se um produto ou serviço para resolver o problema. Em uma análise de publicações no Instagram feita durante a pandemia, mais de 96% dos conteúdos sobre o tema vinham de criadores que vendiam ou divulgavam produtos ou serviços.
Entre as práticas citadas estão hidroterapia, soros intravenosos, limpezas e desintoxicações, além de cereais apresentados como aliados da imunidade. Segundo o estudo, não há boas evidências de que essas práticas beneficiem a função imunológica. Vitaminas, minerais e ervas também oferecem benefício limitado para quem não tem deficiências diagnosticadas.
Outro levantamento da equipe avaliou suplementos de células-tronco vendidos na Amazon. Mais de 40% dos produtos prometiam benefícios para a imunidade, embora não haja evidência clara de eficácia para nenhum problema de saúde. Conforme a Health Canada, agência reguladora do Canadá, nenhum medicamento, produto ou remédio natural foi oficialmente aprovado para estimular o sistema imunológico.
A comercialização da imunidade preocupa porque pode minar a confiança nos sistemas de saúde e confundir o público sobre o que é confiável. Os autores lembram que a desinformação sobre vacinas durante a pandemia reduziu a adesão à vacinação e reforçou ideias equivocadas sobre a imunidade individual. A hesitação vacinal tem múltiplos fatores, como política e polarização, mas discursos imprecisos sobre imunidade tornam o cenário ainda mais confuso.
Para o público, a orientação é cautela diante de produtos e serviços que prometem saúde rápida. Antes de comprar suplementos ou seguir dietas da moda, vale consultar um médico ou outro profissional de saúde. Entender como a imunidade funciona ajuda a avaliar melhor essas promessas e a se preparar para futuras emergências sanitárias.


