Eleições locais sul-africanas colocam CNA sob pressão
Nesta quarta-feira (4), sul-africanos votam em eleições locais em que o CNA, partido de Mandela, deve perder votos em meio a crise de serviços básicos.
Os sul-africanos votam nesta quarta-feira (4) nas eleições locais sul-africanas, que escolhem os governos municipais responsáveis por serviços básicos como água, eletricidade e coleta de lixo. O Congresso Nacional Africano (CNA), partido que levou Nelson Mandela ao poder em 1994, deve seguir como a maior legenda do país, mas as pesquisas indicam uma perda expressiva de votos.
Segundo levantamento da Ipsos, o CNA teria cerca de 30% das preferências, ante 46% na eleição municipal de 2021. A legenda já vinha em queda: em 2004, no auge, obteve 70% dos votos nas eleições gerais, e cerca de duas décadas depois chegou a 40%. Segundo analistas, o desgaste está ligado à corrupção, ao desemprego e à criminalidade.
O presidente Cyril Ramaphosa nega que o partido esteja em declínio. Em seu último comício, ele disse a apoiadores que a sigla está em alta e que os críticos serão surpreendidos nas urnas.
Em bairros tradicionalmente fiéis ao CNA, como Alexandra, ao norte de Joanesburgo, moradores afirmam que a falta de melhorias nos serviços afastou eleitores. Lixo acumulado, esgoto a céu aberto e buracos nas ruas fazem parte do cotidiano local. Parte dos jovens diz que não pretende votar, enquanto outros, como um estreante de 18 anos, esperam que a eleição traga mudanças.
O problema não se limita a Alexandra. Em Gauteng, província onde ficam as três metrópoles locais, a falta de água e de energia se repete em vários bairros, sobretudo nas periferias. Em Soweto, moradores relatam que a água costuma faltar às segundas-feiras a partir da tarde.
Joanesburgo, com 4,8 milhões de habitantes, é o caso mais sensível. A cidade enfrentou falta de água por mais de uma semana e já teve dez prefeitos em dez anos, rotatividade que especialistas apontam como uma das causas da má prestação de serviços. Relatórios do auditor-geral também destacam a situação financeira do município, que já foi classificado como praticamente falido.
Na disputa pela prefeitura de Joanesburgo, a Aliança Democrática (DA), liderada por Helen Zille, cresce nas pesquisas: a Ipsos prevê 25% dos votos, ante 22% em 2021. Ex-prefeita da Cidade do Cabo, Zille fez uma campanha chamativa, com mergulho com snorkel em um buraco de rua e caiaque em uma via alagada. Ainda assim, ela é vista com desconfiança por parte do eleitorado negro por comentários antigos considerados favoráveis ao colonialismo.
Em eThekwini, que inclui Durban, o partido uMkhonto weSizwe (MK), fundado pelo ex-presidente Jacob Zuma, aparece com mais de 40% em algumas pesquisas. Mesmo assim, ele dificilmente alcançará maioria absoluta e precisará de parceiros, mas recusa alianças tanto com o CNA quanto com a DA. Na Cidade do Cabo, governada pela DA desde 2006, a expectativa é de manutenção do controle, embora com menos votos do que em 2021.
Analistas esperam que as coalizões sigam como regra em várias prefeituras, cenário que costuma gerar instabilidade e trocas frequentes de comando. Uma aliança entre CNA e DA, nos moldes do governo de unidade nacional, é considerada possível em algumas metrópoles, embora dirigentes locais do CNA resistam a ela.
A participação também preocupa. Cerca de 29 milhões de pessoas estão registradas para votar, mas o comparecimento vem caindo, sobretudo entre os jovens. Para analistas, isso reflete a percepção de baixa qualidade dos candidatos e a pouca visibilidade dos vereadores, justamente os eleitos para representar cada bairro.
A comissão eleitoral tem sete dias para divulgar os resultados. Depois do anúncio, os partidos terão 14 dias para formar as estruturas de governo e eleger os prefeitos, que não são escolhidos diretamente pelo voto. Até lá, as alianças definirão quem governará as principais cidades do país.



