Detecção de notícias falsas: sistema da USP diferencia textos escritos por humanos e por IA
Pesquisadores do ICMC da USP criam sistema que diferencia notícias falsas escritas por pessoas das geradas por inteligência artificial em português.
Uma ferramenta desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, pode auxiliar na detecção de notícias falsas. O sistema analisa as características da linguagem de um texto, classifica se ele foi escrito por uma pessoa ou produzido por inteligência artificial (IA) e indica os pontos mais relevantes para essa decisão.
Segundo os autores, o sistema foi testado em laboratório e apresentou elevada capacidade de identificar a autoria dos textos. A expectativa é que, no futuro, a técnica seja aplicada em programas de computador específicos para classificar conteúdos em língua portuguesa.
A pesquisa foi descrita em um artigo científico apresentado na 25ª Conferência Internacional sobre Inteligência Artificial (EPIA), realizada em Portugal entre os dias 2 e 4 de setembro.
O trabalho é de mestrado de Pedro Lucas Castro de Andrade, orientado pelo professor Thiago Pardo, do ICMC. Segundo Pardo, o objetivo é verificar se é possível distinguir, por meio computacional, notícias falsas escritas por humanos daquelas geradas por grandes modelos de língua (LLMs) em português brasileiro, um idioma pouco estudado nessa área.
Para o professor, a tarefa ganhou importância com o avanço da IA e seu uso sem controle pela sociedade. Um classificador confiável ajudaria a rastrear a origem de informações falsas que circulam na internet.
A ferramenta faz parte do projeto Synestech.AI, que reúne pesquisadores de várias instituições. O nome combina os termos sinestesia, tecnologia e IA. A sinestesia é um fenômeno perceptivo raro em que a estimulação de um sentido desencadeia uma experiência em outro, e o projeto envolve diferentes tipos de dados e processamentos, como processamento de língua natural, visão computacional e processamento de imagens.
Na primeira etapa, os pesquisadores caracterizaram linguisticamente dois conjuntos de notícias, chamados Fake.br e FakeTrueBR, aos quais foram acrescentadas notícias falsas produzidas pelo Sabiá-3, um LLM especializado em português. Nesses dados, para cada notícia falsa escrita por um humano há uma equivalente gerada por máquina.
A análise acontece em camadas. A lexical e sintática compara vocabulário, complexidade silábica e distribuição de classes gramaticais. A semântica e psicolinguística observa, por exemplo, o uso de verbos e de palavras concretas ou abstratas. Em seguida, o texto é representado numericamente, em embeddings, e um classificador de aprendizado de máquina decide sua origem.
Os classificadores foram avaliados por precisão, revocação e F1. De acordo com Pardo, as abordagens neurais ultrapassam 99% de F1 nos dados utilizados, o que indica alta capacidade de identificar a origem das notícias. A análise linguística também aponta que a complexidade e a variabilidade estrutural dos textos são atributos importantes.
Apesar dos resultados, o método está em fase de prova de conceito e ainda não há software disponível para uso. Os pesquisadores investigam se os resultados se mantêm em outros conjuntos de dados, qual é o efeito de outros LLMs e de estratégias de produção de notícias falsas, além de tentativas de enganar os classificadores. No futuro, a equipe pretende avaliar também informações de imagens, vídeos e áudio.
O projeto de detecção de notícias falsas é conduzido por um time do ICMC, com a colaboração de docentes e de alunos de graduação e pós-graduação. A frente de Processamento de Linguagem Natural do Synestech.AI conta com mais de 80 pesquisadores de instituições como USP, Unesp, UFSCar, UFAL, UFS, UFPA, UFBA e UFSC. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail taspardo@icmc.usp.br.


