Colheita de azeitonas na Cisjordânia é marcada por ataques e destruição recorde de oliveiras
Peritos da ONU alertam para ataques, vandalismo de oliveiras e restrições de acesso a agricultores palestinos durante a colheita na Cisjordânia.
Sete especialistas em direitos humanos da ONU alertaram nesta quinta-feira (22) para o aumento das ameaças enfrentadas por agricultores palestinos na Cisjordânia durante o início da colheita de azeitonas. Segundo o grupo, a situação compromete os meios de subsistência, os direitos culturais e a segurança alimentar dessas comunidades, e pede que Israel garanta proteção e acesso seguro às terras.
Em nota, os peritos afirmam que a colheita deveria ser um momento de sustento e dignidade, e não de medo, perdas, violência e destruição. Segundo eles, a violência e as restrições se intensificam ano após ano na região.
Na safra de 2025, foram registrados 178 ataques de moradores de assentamentos associados à colheita em 88 vilas e cidades palestinas da Cisjordânia, o maior número de localidades afetadas desde 2020. Além disso, mais de 6 mil árvores e mudas foram vandalizadas, quase o dobro do registrado em 2024 e o patamar mais alto em seis anos.
A preocupação aumentou em setembro, quando autoridades militares israelenses emitiram ordens para a remoção de vegetação em cerca de 339 mil metros quadrados de terras agrícolas palestinas no norte e no centro da Cisjordânia. As áreas incluem oliveiras em Jenin, Qabatiya e Beit Rima. As ordens prevêem o arrancamento das árvores e dão prazos extremamente curtos para que os proprietários removam a vegetação e apresentem contestações formais.
Para os especialistas, a azeitona é fonte essencial de alimento, renda e subsistência para milhares de famílias palestinas, além de estar profundamente ligada ao patrimônio cultural e agrícola da região. Como as oliveiras levam anos para amadurecer e podem sustentar gerações, sua destruição afeta não apenas uma safra, mas também sistemas alimentares locais, práticas culturais e o direito à alimentação.
O comunicado também cita relatos de olivais arrancados por tratores militares perto de Ramallah pouco antes do início da colheita. Os peritos afirmam que o cenário tende a piorar, diante da revogação crescente ou da recusa das autorizações de pré-coordenação necessárias para que os agricultores acessem suas terras em determinadas áreas.
Uma mudança na política militar israelense deste ano também preocupa o grupo. Segundo os especialistas, palestinos ficam impedidos de obter licenças ou colher azeitonas em terras classificadas por Israel como terras estatais, inclusive em parcelas tradicionalmente cultivadas por famílias palestinas há gerações. A esse quadro somam-se o deslocamento de comunidades de pastores e beduínos por ataques de moradores e a retenção, por parte de Israel, das receitas alfandegárias palestinas, o que reduziu acentuadamente a renda familiar.
Os peritos cobram que Israel cumpra suas obrigações sob o direito internacional, proteja os agricultores contra ataques de moradores de assentamentos, encerre a interferência no acesso à terra e as novas atividades de assentamento, e garanta reparações integrais, incluindo a restituição de terras e o retorno de palestinos deslocados. Eles também pedem que a comunidade internacional, especialmente os Estados com poder e influência, pressione pela proteção dos civis palestinos e pela responsabilização por décadas de violações. O comunicado é assinado por relatores especiais da ONU, entre eles Sofía Monsalve Suárez, sobre o direito à alimentação, e Francesca Albanese, sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos.

