Câncer de mama em Gaza: pacientes enfrentam falta de exames, remédios e autorização para tratamento
Pacientes com câncer de mama na Faixa de Gaza enfrentam atrasos em exames, falta de remédios e dificuldade para viajar em busca de tratamento.
O câncer de mama em Gaza se tornou mais uma frente da crise de saúde e humanitária no território palestino. Mulheres diagnosticadas enfrentam atrasos em exames, falta de medicamentos e dificuldades para deixar a Faixa de Gaza em busca de tratamento especializado.
Um dos casos é o de Hiba Musbah, de 36 anos, mãe de três filhos e moradora do leste de Deir el-Balah. Ela já passou por sete ciclos de quimioterapia e fará o oitavo na próxima semana, mas afirma que seu quadro piorou enquanto aguarda para viajar ao exterior. “Não consigo mais cuidar dos meus filhos como antes. Meu filho é quem me ajuda”, disse.
Musbah percebeu caroços na mama direita em janeiro de 2024, poucos meses após o início da guerra. Na época, adiou a busca por atendimento porque estava deslocada e os combates se intensificavam. A cirurgia urgente só foi realizada dois meses depois, em meio a ataques militares israelenses nas proximidades do Hospital Nasser, em Khan Younis. A quimioterapia também foi atrasada por sete meses, pois os medicamentos não estavam disponíveis na unidade.
Hoje, ela tem dificuldade para andar e movimentar um dos braços, além de dores nos ombros, nas pernas e nos olhos. Precisa de uma nova tomografia computadorizada para avaliar a evolução da doença, mas o exame não está disponível nos hospitais públicos. Um hospital privado tem o aparelho, porém o exame custa cerca de 150 shekels (US$ 48), valor que ela não consegue pagar, e a espera pode passar de três meses.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, o território registrava cerca de 360 novos casos de câncer de mama por ano antes da guerra, número que caiu para 250 em 2024 e ficou em torno de 260 em 2025. O próprio órgão alerta que esses dados podem não refletir a realidade, já que os serviços de triagem praticamente colapsaram.
Em comunicado de 1º de outubro, o ministério disse que quebras frequentes dos aparelhos de mamografia e a falta de insumos laboratoriais restringiram severamente a detecção precoce. Quimioterapia, terapias hormonais e direcionadas estavam indisponíveis ou em situação crítica, a radioterapia não estava disponível e cirurgias para tumores avançados foram suspensas.
A médica Iman al-Haj Ahmad, obstetra e ginecologista do centro de saúde Hikmat al-Jamei, em Deir el-Balah, vive a situação dos dois lados. Ela atende mulheres em busca de diagnóstico e também é paciente, diagnosticada em maio de 2025. “Tive que procurar até encontrar um lugar onde pudesse fazer uma mamografia”, afirmou. Hoje, recebe terapia hormonal enquanto aguarda autorização para radioterapia no exterior, pendente desde setembro de 2025.
Em outubro, mês de conscientização sobre o câncer de mama, profissionais do centro Hekr al-Jameh realizam uma campanha com atendimentos e sessões educativas. Segundo a supervisora Sabreen al-Buhaisi, cerca de 700 a 800 mulheres foram rastreadas, e sete ou oito casos foram encaminhados a cirurgiões. Ela ressalta que a mamografia gratuita está disponível em poucos hospitais, com longas filas, e que exames particulares são caros demais para muitas famílias.
Mesmo diante das dificuldades, Musbah segue cobrando explicações sobre a demora. A evacuação é coordenada entre a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde de Gaza, que enviam os prontuários a Israel para triagem de segurança. Israel controla todas as entradas e saídas do território e ainda não concedeu a aprovação a ela. “Estou esperando há dois anos e ainda não consegui viajar”, disse.
O relato ocorre um ano após o início do chamado cessar-fogo em Gaza, período em que ataques israelenses continuaram e o número de mortos na guerra ultrapassa 74,4 mil palestinos.

