Sereia de Fiji: fraude convenceu multidões de que sereias existiam no século 19
A Sereia de Fiji, exibida como prova de criaturas misteriosas no século 19, era uma fraude feita com torso de macaco e cauda de peixe.
Uma criatura de aparência grotesca, que misturava características de mamífero e de peixe, convenceu espectadores de vários países de que sereias poderiam existir de verdade. Conhecida como Sereia de Fiji (Feejee Mermaid, em inglês), a peça circulou por museus e espetáculos itinerantes ao longo do século 19.
Na época, parte do público e alguns observadores chegaram a enxergar no espécime um possível elo perdido entre humanos e animais aquáticos. A discussão ocorreu em um momento em que cientistas debatiam novas ideias sobre a evolução das espécies.
Segundo Jack Daly, professor de escrita e retórica da Universidade do Colorado em Boulder, a criatura nunca passou de uma fraude cuidadosamente construída, feita com o torso de um jovem macaco costurado à cauda de um peixe. Em artigo sobre o tema, o pesquisador explica que a peça unia elementos do folclore, da ciência e traços humanos e animais, o que ajudou a alimentar debates intelectuais nos Estados Unidos.
A exibição chegou ao país pelas mãos do empresário e artista P. T. Barnum. No American Museum, em Nova York, o espécime era apresentado como “A Maior Curiosidade do Mundo”, com a afirmação de que tinha origem nas Ilhas Fiji, no Oceano Pacífico.
Ao contrário das sereias do folclore, a peça tinha aparência pouco atraente. O próprio Barnum a descreveu como um exemplar pequeno, ressecado e escuro, com cerca de três pés de comprimento, boca aberta, cauda virada e braços erguidos, como se o animal tivesse morrido em grande agonia.
Mesmo com o aspecto incomum, a atração reunia grandes multidões. Os organizadores da exposição apostavam no fascínio do público por animais exóticos, regiões distantes e territórios pouco conhecidos, e a apresentação como descoberta autêntica dos oceanos transformou o espécime em um fenômeno de repercussão internacional.
Essa suposta ligação evolutiva não é aceita pela ciência contemporânea. Exames detalhados mostraram que a peça era uma montagem artificial feita com restos de animais diferentes.
Daly classifica as Sereias de Fiji exibidas nos Estados Unidos como exemplos das chamadas sideshow gaffs, fraudes típicas dos espetáculos de variedades da época. Para ele, essas atrações prosperavam justamente porque dialogavam com discussões científicas sobre evolução, algo que intrigava o público vitoriano.
Um trecho da autobiografia de Barnum relata que ele chegou a pedir a opinião de um naturalista sobre a autenticidade da criatura. Segundo o relato, o especialista disse não entender como o espécime fora fabricado, já que nunca havia visto um macaco com dentes, braços e mãos com aquelas características, nem um peixe com nadadeiras semelhantes.
Mesmo assim, Barnum afirmou ter decidido acreditar na existência da sereia e, depois, usou a atração para enganar espectadores nos Estados Unidos. O caso ilustra como o espetáculo e a aparência de investigação científica podiam se misturar para convencer o público.



