Autoridades iranianas veem derrota republicana nas eleições nos EUA como rejeição à guerra
Autoridades iranianas celebram o resultado das eleições nos EUA, mas o líder supremo Mojtaba Khamenei diz que Washington não deve mudar sua postura contra Teerã.
Autoridades iranianas comemoraram a derrota do Partido Republicano do presidente Donald Trump nas eleições nos EUA, realizadas na terça-feira (3). Os democratas assumiram o controle das duas casas do Congresso americano, e o resultado foi interpretado em Teerã como uma rejeição da população dos Estados Unidos à guerra contra o Irã.
O presidente do Parlamento iraniano e principal negociador com Washington, Mohammad Bagher Ghalibaf, publicou na rede X que “os americanos disseram NÃO à guerra” e afirmou que o Irã endossa essa mensagem. Ele advertiu que, se o governo dos Estados Unidos “trair a vontade do seu povo” para servir a patrocinadores internacionais, vai descobrir que o “não” iraniano vem acompanhado de um pesadelo.
O tom foi mais cauteloso no topo do regime. Em comunicado publicado em seu site, o líder supremo Mojtaba Khamenei, que não aparece em público desde o início da guerra, afirmou que quem espera mudança na postura americana por causa da troca de partido está “gravemente equivocado”. Segundo ele, o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz derrubou o “mito da invencibilidade americana”, e qualquer novo ataque dos EUA teria uma resposta muito mais ampla.
Do lado americano, Trump reconheceu que os resultados ruins para os candidatos republicanos se deveram em parte à guerra e à alta no preço da gasolina. Em entrevista à Fox News, ele disse que “uma parte disso foi o Irã”, mas afirmou não se arrepender do ataque conjunto com Israel contra o Irã, lançado em fevereiro. Segundo ele, o eleitor apoia sua política para o Irã, mas não quis arcar com o custo de pagar mais caro pela gasolina.
Em outra entrevista, à CBS News, Trump disse que o conflito terminará “quando eu disser que terminou”. Nas últimas semanas, ele havia alertado que EUA e Israel poderiam voltar a uma guerra total após as eleições caso não se chegue a um acordo com Teerã.
O cenário militar segue tenso. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo, está praticamente fechado desde o início da guerra, por causa de ataques iranianos a navios comerciais e do bloqueio naval americano. Um acordo preliminar firmado em junho entrou em colapso em poucas semanas, e as negociações indiretas, mediadas pelo Catar, estão paralisadas há meses.
Nesta quarta-feira (4), a Guarda Revolucionária Islâmica afirmou que quatro petroleiros pegaram fogo após atingirem minas navais no estreito e que um drone americano MQ-9 foi abatido na região. A BBC Verify, porém, não encontrou evidências de que quatro navios tenham sido destruídos. Em um incidente separado, o centro britânico UKMTO informou que um petroleiro foi atingido por dois projéteis não identificados perto de Limah, em Omã, na terça-feira (3), sem registro de vítimas. Na segunda-feira (2), um tripulante indiano de um dhow, barco de madeira à vela, morreu em um ataque na mesma região.
Em Teerã, há quem tema que Trump reaja à derrota com uma nova ofensiva, por vingança, já que autoridades iranianas apresentaram o resultado como uma derrota imposta pelo Irã. Enquanto isso, as negociações para encerrar o conflito seguem sem avanços, e a nova composição do Congresso dos EUA deve ser um dos fatores a pesar nos próximos passos de Washington.



