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Havaianos nativos descendem de navegadores que cruzaram cerca de 7 mil km desde a Ilha de Páscoa, sugere estudo genético

Estudo genético publicado na Science sugere que havaianos nativos descendem de navegadores que partiram da Ilha de Páscoa há cerca de mil anos.

Por Roberto Andrade ·
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Canoa de viagem de madeira com velas triangulares navega em mar aberto ao entardecer, sob um sol baixo e uma linha tracejada que sugere uma longa rota pelo Pacífico.
Ilustração: Repórter Capixaba

Há cerca de mil anos, um grupo de navegadores muito habilidosos deixou a Ilha de Páscoa, também conhecida como Rapa Nui, no Oceano Pacífico, e atravessou semanas no mar até aportar em terras que hoje formam o Havaí, a cerca de 7 mil quilômetros de distância. Um estudo genético publicado em 8 de outubro na revista Science indica que esse percurso, feito em grandes canoas de casco duplo, ajuda a explicar a origem dos primeiros povoadores do arquipélago havaiano.

A pesquisa analisou dados genéticos de mais de mil polinésios que vivem atualmente. Os cientistas compararam os genomas completos de 1.050 pessoas, incluindo 317 havaianos nativos e 12 habitantes da Ilha de Páscoa, observando o tamanho dos trechos de cromossomos compartilhados entre indivíduos de ilhas diferentes. Quanto mais longo o trecho em comum, maior a chance de um ancestral recente em comum.

A partir desses dados, a equipe reconstruiu milhares de árvores genealógicas. Em 61% delas, o Havaí e a Ilha de Páscoa aparecem lado a lado, o que surpreendeu os próprios autores. Segundo o antropólogo Keolu Fox, da Universidade da Califórnia em San Diego, um dos coautores, a equipe refez a verificação de quatro maneiras diferentes antes de aceitar o resultado. Os havaianos nativos têm a segunda maior ancestralidade compartilhada com pessoas de Mangareva, ilha situada a cerca de 2.600 quilômetros a oeste da Ilha de Páscoa.

Em termos geográficos, as duas ilhas estão entre as mais isoladas da Polinésia. O arquipélago havaiano é o único do grupo localizado no Hemisfério Norte, e a Ilha de Páscoa fica afastada da costa do Chile. Ambas estão a mais de 2.900 quilômetros da ilha habitada mais próxima da região, o que torna o vínculo genético inesperado.

Essa rota se soma ao histórico de ocupação da Polinésia. Um estudo de 2021, de parte da mesma equipe, descreveu um caminho que partiu de Samoa, passou pelas Ilhas Cook e pelas Ilhas da Sociedade, seguiu para Mangareva e, por fim, chegou à Ilha de Páscoa por volta de 1210. A nova pesquisa mostra que essa cultura de navegação de longa distância não parou ali. Os autores chamam o grupo de Holomoana Nui, expressão havaiana que significa algo como “grande viagem oceânica”.

Especialistas independentes veem coerência entre os resultados genéticos e os dados arqueológicos. Patrick Kirch, arqueólogo da Universidade do Havaí em Mānoa, que não participou do trabalho, afirma que a convergência de evidências de áreas diferentes dá mais segurança aos cientistas.

O estudo também chama atenção para um efeito colateral desse povoamento. Quando um grupo pequeno funda uma nova comunidade, o chamado efeito do fundador, a diversidade genética fica reduzida, e variantes raras, inclusive associadas a doenças, podem se tornar mais frequentes. Esse fenômeno já foi documentado em populações como os amish, os judeus asquenazes e os finlandeses, que passaram a contar com programas de triagem genética para determinadas condições. Para os autores, os havaianos nativos, que estão no fim de uma sequência de eventos fundadores, deveriam receber o mesmo tipo de atenção.

Três variantes genéticas analisadas, associadas a problemas de visão e de rins e muito raras na população mundial, apareceram em 2% a 3% dos polinésios orientais que participaram do estudo. Segundo os pesquisadores, o índice é suficiente para justificar recomendações de triagem genética. O coautor Alexander Ioannidis, da Universidade Stanford, defendeu que essas populações recebam mais recursos e atenção da comunidade científica.

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