Fóssil de dinossauro brasileiro preserva vestígios de sangue com 115 milhões de anos
Pesquisadores encontraram vestígios de hemácias e heme em fóssil de dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos, achado inédito para a ciência.
Um fóssil de dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos guarda um achado raro: vestígios de glóbulos vermelhos, as hemácias, preservados em um osso. Fósseis costumam revelar a forma e a estrutura dos animais, mas raramente mostram sinais de tecidos que deveriam ter desaparecido há muito tempo. O estudo foi publicado na última segunda-feira (2) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
O material pertence à espécie Aratasaurus museunacionali, encontrada em 2008 na Bacia do Araripe, no sertão do Ceará. Anos depois, fragmentos de ossos foram enviados a universidades de diferentes países, e um deles chamou a atenção dos pesquisadores.
A pesquisa foi liderada pela cientista Kliti Grice, da Universidade Curtin, na Austrália, com participação de especialistas da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo a equipe, o fóssil permitiu isolar vestígios de hemácias presentes em um pedaço do osso da perna do animal.
As hemácias, ou glóbulos vermelhos, são responsáveis pelo transporte de oxigênio e gás carbônico pelo corpo. Elas são compostas principalmente por hemoglobina, uma proteína que contém o heme, molécula justamente identificada nos restos do dinossauro.
Tecidos moles, como vasos sanguíneos, fibras de colágeno e outras biomoléculas, dificilmente sobrevivem à fossilização, e a pesquisa sobre essas estruturas era considerada impossível. Segundo a pesquisadora Kliti Grice, à ABC News, “ninguém jamais encontrou heme dentro de uma célula sanguínea fossilizada”.
Antes de confirmar o resultado, a equipe fez testes para descartar contaminação. O fragmento foi cortado em vários pedaços e tratado com ácido clorídrico para remover a rocha ao redor. Na parte externa havia sedimentos com clorofila, molécula típica de plantas, o que indicava contaminação por algas. Já no interior, os pesquisadores descartaram esse problema e encontraram os vestígios de heme.
Para o pesquisador Alexander Kellner, do Museu Nacional/UFRJ, o achado mostra que é possível investigar a história dos animais além dos ossos e de suas características anatômicas. Ele afirmou que o resultado ajuda a ampliar a compreensão sobre o que pode ser preservado ao longo do tempo, em um fóssil com mais de 100 milhões de anos.
O trabalho também reforça a importância de combinar diferentes áreas do conhecimento para entender a história da vida na Terra. Como se trata de um achado recente, cabe aos próximos estudos detalhar as condições em que essas estruturas se preservaram.



