Vitória, segunda-feira 26 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Saúde

Doenças infecciosas avançam com as mudanças climáticas no Brasil

Dengue, febre do Oropouche, hantavírus e fungos resistentes avançam com as mudanças climáticas, segundo especialistas e um estudo da Fiocruz.

Por Roberto Andrade ·
Compartilhe:
Doenças infecciosas avançam com as mudanças climáticas no Brasil
Foto: witsawat/Adobe Stock

As mudanças climáticas já aparecem nos números de saúde do país. Segundo especialistas e estudos recentes, o aumento das temperaturas e as alterações no regime de chuvas ampliam a área e a intensidade de doenças infecciosas em várias regiões brasileiras, incluindo locais onde elas antes eram raras.

Durante décadas, o clima funcionou como uma barreira natural contra a dengue. O mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença, se desenvolve melhor em áreas quentes e úmidas, e temperaturas mais baixas dificultavam sua expansão. Essa proteção, porém, vem diminuindo. Em 2007, o Rio Grande do Sul registrou um caso de dengue que não havia sido importado de outra região do país. Em 2024, ano de recorde de casos no Brasil, o estado teve cerca de 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes.

Na Bahia, onde as temperaturas já são mais elevadas, foram cerca de 163 mil casos confirmados e 188 óbitos no mesmo período. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que o problema não se restringe ao sul. Entre 2006 e 2024, o número de microrregiões com níveis epidêmicos de dengue passou de 110 para 292, mais do que o dobro, o que representa 54% do país. As demais 46% apresentaram incidência média a baixa.

A principal explicação apontada pela pesquisa está no clima. O indicador que melhor explica o aumento da incidência de dengue no longo prazo é a maior frequência de anomalias térmicas, ou seja, períodos em que as temperaturas fogem muito do habitual em determinado local. Os autores do estudo avaliam que a expansão da transmissão parece irreversível, já que, uma vez introduzidos, o vírus e o mosquito dificilmente voltam a um cenário de transmissão zero.

O infectologista Celso Granato, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, explica que o clima afeta todas as fases de vida do mosquito. Os ovos têm casca muito resistente e podem permanecer anos na natureza até eclodir com umidade e calor. Além disso, os mosquitos já podem nascer infectados, pois o vírus é transmitido da fêmea para os ovos. Já entre os adultos, o calor intenso aumenta o gasto de energia para voar, o que leva o inseto a picar mais e a transmitir mais a doença.

A dengue não é a única preocupação. A febre do Oropouche, que circulava quase exclusivamente na Região Amazônica até 2023, causou mais de 12 mil infecções em 2025, em 23 estados e no Distrito Federal. A relação dessa doença com o clima ainda está sob investigação, mas especialistas acreditam que mudanças nos padrões de temperatura e chuva, somadas à degradação ambiental, ajudaram em sua expansão.

Eventos extremos, como secas e enchentes, também preocupam. Com a previsão de que o El Niño afete o Brasil, o risco de surtos tende a crescer. Após as chuvas no Rio Grande do Sul, os casos de leptospirose aumentaram de forma expressiva. A doença é transmitida principalmente pela urina de ratos, que se espalha nas enchentes. A água da enxurrada, misturada ao esgoto, pode contaminar a água e os alimentos, o que eleva o risco de infecções gastrointestinais e de hepatite A.

Nas secas, o problema vem dos incêndios florestais. Com a queimada, animais silvestres se aproximam de casas, principalmente pequenos mamíferos que podem transmitir doenças aos humanos. O exemplo mais grave é o hantavírus. Desde 2016, o país confirmou 530 infecções pela cepa que circula no Brasil, com 212 mortes e taxa de letalidade de 40%. Segundo Granato, casos anteriores na Bolívia e no Paraguai mostram que roedores infectados podem entrar nas casas após queimadas.

Os fungos também entram nessa conta. Em apresentação no Congresso Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Sarah Gonçalves Tavares afirmou que o aquecimento está levando alguns fungos a se adaptar ao corpo humano. A temperatura corporal média de 37 graus Celsius impede o crescimento de cerca de 95% dos fungos do ambiente, mas esse bloqueio natural pode ser rompido à medida que eles se adaptam ao calor.

O caso mais conhecido é o da Candida auris, identificada pela primeira vez na década de 1990 e capaz de sobreviver em altas temperaturas e por longos períodos no ambiente. Segundo a professora, pessoas saudáveis dificilmente se infectam, mas pacientes imunodeprimidos são vulneráveis, por isso os surtos ocorrem sobretudo em hospitais. No Brasil, o primeiro registro foi em 2020, na Bahia. Desde então, foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde, com 56 mortes entre 146 pacientes colonizados.

Outro exemplo é o Trichophyton indotineae, fungo que causa problemas de pele, identificado pela primeira vez em 2022 e que já surgiu com resistência a antifúngicos. Fungos resistentes respondem mal aos tratamentos tradicionais. Os eventos extremos também contribuem para isso, já que, ao proteger plantações vulneráveis, agricultores usam mais fungicidas, o que acelera a seleção de cepas resistentes. Há ainda o Aspergillus, que se espalha para novas regiões após mudanças de temperatura e umidade, inclusive no Brasil.

Diante desse cenário, especialistas defendem vigilância em saúde e atenção ao surgimento de novos casos. Quem apresentar sintomas compatíveis com essas doenças deve procurar um profissional de saúde.

Compartilhe:

Leia também