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Vitória democrata nos EUA não deve aliviar pressão de Trump sobre o Brasil, dizem analistas

A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos EUA deve limitar a agenda interna de Trump, mas não muda a postura dele em relação ao Brasil.

Por Roberto Andrade ·
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Repórter Capixaba

Uma vitória democrata no Congresso nem sempre significa menos pressão externa. Nos Estados Unidos, a derrota republicana nas eleições de meio de mandato deve limitar a agenda interna de Donald Trump, mas, segundo analistas consultados para a reportagem, não deve aliviar a pressão de Trump sobre o Brasil.

Para os especialistas, a nova correlação de forças em Washington não deve alterar a postura da Casa Branca em relação ao país. Devem permanecer as tarifas sobre produtos brasileiros, a insistência para que o Brasil se afaste da China, principal parceiro comercial do país desde 2009, e a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas, medida que abriu espaço para possíveis incursões militares americanas em território nacional.

A apuração ainda não foi concluída em todos os estados, mas os dados parciais indicam que os democratas voltarão a controlar a Câmara dos Representantes, com 237 parlamentares contra 139 republicanos até agora, e também o Senado, com 54 cadeiras contra 44 do partido do presidente. Ainda falta definir a disputa no Alasca, onde a democrata Mary Peltola aparece à frente do republicano Dan Sullivan por 625 votos, com 77% das seções apuradas até a noite de quarta-feira.

A nova composição passa a valer a partir de 3 de janeiro de 2027. Hoje, os republicanos têm 53 senadores contra 49 democratas e 220 deputados contra 215. Essa maioria vinha permitindo que Trump governasse com poucos constrangimentos políticos.

Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), avalia que o governo Lula, recém-reeleito, pode ganhar mais diálogo com o Congresso democrata em temas como meio ambiente, mas isso não deve mudar a forma como Trump conduz a política externa. Segundo ele, as ferramentas usadas pelo presidente para pressionar outros países não passam pelo Capitólio, e os democratas devem priorizar a oposição às políticas internas, como as deportações conduzidas pela agência de Imigração e Alfândega (ICE).

O Departamento de Estado é comandado por Marco Rubio, que esteve à frente de ações duras na América Latina, como a prisão de Nicolás Maduro após uma incursão militar na Venezuela, em janeiro, e o embargo energético a Cuba. Cotado para a eleição presidencial de 2028, Rubio também travou embates retóricos com o Brasil. Em julho, afirmou que Lula “colocou seu ego acima” de um acordo comercial.

Entre as medidas citadas está uma nova taxa de 25% sobre uma série de importações brasileiras, anunciada em julho com base na Seção 301, trecho de uma lei comercial de 1974. Considerando as exceções definidas pela Casa Branca, parte dos produtos brasileiros entra nos EUA pagando 37,5% de taxa.

Também pesa a Lei Magnitsky, de 2012, que restringe movimentações financeiras de pessoas consideradas violadoras de direitos humanos. Em julho do ano passado, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes foi incluído na lista, e meses depois sua esposa, a advogada Viviane Barcie Moraes. Em dezembro, ambos foram retirados, mas, segundo reportagem do jornal britânico Financial Times, há a intenção de recolocar o ministro.

Mesmo com maioria democrata, revisar as tarifas ou a classificação das facções seria difícil. O presidente pode vetar projetos de lei, e derrubar um veto exige dois terços em ambas as Casas, o que equivale a 290 deputados e 67 senadores. Além disso, a validade das tarifas aplicadas por decreto pode ser decidida pela Suprema Corte americana.

Para Feliciano de Sá Guimarães, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o protecionismo americano independe de quem ocupa a Casa Branca ou o Congresso. Ele vê espaço para negociações mais amplas com os democratas, que, no entanto, devem cobrar contrapartidas do Brasil. Já Carlos Gustavo Poggio, do Berea College, nos Estados Unidos, afirma que o uso de decretos foi uma estratégia para reduzir a margem de manobra dos parlamentares.

Na proteção a setores como aço e alumínio, Bressan, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), identifica consenso entre os dois partidos. A tarifa de 50% sobre essas importações, anunciada em junho, tem base em uma lei de 1962 voltada à segurança nacional.

Analistas apontam que a inflação americana, de 3,6% no acumulado de 12 meses até setembro, ante 4,2% em maio, deve ser o principal alvo das críticas democratas, sobretudo pela guerra no Irã e pela alta do petróleo. Bressan lembra que presidentes americanos costumam recorrer à política internacional quando têm dificuldade para aprovar reformas internas, e o acompanhamento agora é observar se isso se repetirá.

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