Exame de cálcio coronário muda indicação de estatinas, mas não prova eficácia superior
Ensaio com quase 6 mil pacientes indica que exame do coração recomenda menos estatinas, sem diferença observada em eventos cardíacos graves.
Um grande ensaio clínico apresentado no ESC Congress 2026 questiona a forma como médicos decidem quem deve tomar estatinas para prevenir infartos e AVCs. Na sessão Hot Line do congresso, os pesquisadores compararam a estratégia tradicional de cálculo de risco com uma abordagem baseada em exame de cálcio coronário, feito por tomografia do coração, e encontraram resultados que apontam caminhos diferentes.
Na prática, os dois métodos produziram a mesma taxa observada de eventos cardiovasculares graves. Mesmo assim, o exame de imagem levou a muito menos recomendações para começar o tratamento com estatinas. Segundo os pesquisadores, os participantes avaliados pelos escores tradicionais receberam indicação para iniciar o remédio mais de três vezes com mais frequência.
O estudo, chamado CorCal Outcomes, acompanhou 5.772 pacientes das regiões Canyons e Desert do Intermountain Health Care, nos Estados Unidos. Os participantes não tinham histórico conhecido de doença cardiovascular aterosclerótica nem diabetes, e nunca haviam usado estatinas. A média de idade era de 64 anos, e mulheres representavam 51% do grupo.
Os voluntários foram sorteados em dois grupos. Um recebeu orientação baseada em calculadoras de risco, que consideram idade, colesterol, pressão arterial e tabagismo. O outro recebeu orientação com base no cálcio acumulado nas artérias que irrigam o coração. Tanto pacientes quanto médicos conheciam as recomendações, mas a decisão final sobre iniciar o tratamento cabia a eles.
Após um acompanhamento médio de 4,2 anos, eventos como morte por qualquer causa, infarto, AVC e procedimentos para desobstruir artérias ocorreram em 2,7% dos participantes de cada grupo. O risco relativo ao longo do tempo foi praticamente idêntico. Apesar disso, os pesquisadores afirmam que essa semelhança não comprova que as duas estratégias sejam igualmente eficazes, já que o estudo não atingiu o critério estatístico previsto para demonstrar essa equivalência.
O achado mais chamativo envolveu a adesão ao tratamento. Entre os pacientes orientados a tomar estatinas, a continuidade foi de 62% nos casos guiados pelo exame de cálcio, contra 23% nos guiados pelo cálculo tradicional de risco. Na prática, a chance de seguir o tratamento foi cerca de 2,7 vezes maior no primeiro grupo. Uma explicação possível é que ver sinais da doença nas próprias artérias aumente a motivação, mas o estudo não confirmou essa razão.
Para o pesquisador principal, Joseph Muhlestein, o trabalho limitou-se a gerar hipóteses. O número de eventos foi menor do que o previsto, o que reduziu o poder estatístico da análise. Ainda assim, os dados podem embasar um novo ensaio, maior e mais robusto, que compare o exame de cálcio com os algoritmos baseados em fatores de risco.
As diretrizes europeias de 2025 já preveem que o escore de cálcio seja considerado, quando disponível, como fator adicional na avaliação de risco, sobretudo em pessoas com risco cardiovascular intermediário ou próximo ao limiar em que o remédio costuma ser indicado. O estudo sugere ainda que os exames de imagem podem influenciar não só quem recebe a indicação, mas também quem segue o tratamento. Se essa vantagem se traduz em melhores desfechos a longo prazo, continua sendo uma pergunta em aberto.



