Vitória, quarta-feira 28 de outubro de 2026
Ano XXXV
Últimas
Curiosidades

Ecolocalização dos morcegos: quatro descobertas mostram como eles ouvem e se comunicam em meio ao ruído

Pesquisas recentes revelam como morcegos usam o som para voar, caçar e se comunicar em ambientes cheios de ruído e ecos.

Por Roberto Andrade ·
Compartilhe:
Ecolocalização dos morcegos: quatro descobertas mostram como eles ouvem e se comunicam em meio ao ruído
Arte: Repórter Capixaba

A ecolocalização dos morcegos é um dos sistemas sensoriais mais eficientes do reino animal. Ao contrário do que muita gente imagina, esses animais não voam às cegas: eles dependem sobretudo do som para se orientar à noite, emitindo sinais que voltam como ecos depois de bater em objetos e em presas. Segundo o ecólogo sensorial Marc Holderied, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, os morcegos percebem o mundo melhor do que qualquer outro animal.

O desafio é que o ambiente é cheio de ruído. Florestas, árvores e rochas devolvem ecos o tempo todo, e os morcegos precisam separar o sinal útil, como o eco de um inseto, do emaranhado de sons ao redor. Além disso, eles se comunicam com chamados como ronronares, cliques e zumbidos, e a maior parte das emissões de ecolocalização fica em frequências altas demais para o ouvido humano.

Pesquisas recentes começam a esclarecer como isso funciona. Um dos pontos estudados é o efeito Doppler: quando o morcego voa em direção a um objeto, o eco retorna em tom mais agudo do que retornaria se ele estivesse parado, da mesma forma que uma sirene soa mais aguda ao se aproximar. Algumas espécies, chamadas de especialistas em Doppler, emitem chamados de frequência mais baixa para compensar esse efeito.

Para entender como outras espécies lidam com essa “melodia Doppler”, a equipe de Holderied acompanhou morcegos-pipistrelo, pequenos insetívoros. A hipótese era de que os animais usam a variação do som, assim como pessoas usam o fluxo de paisagens ao caminhar, para perceber a própria velocidade. Para testar a ideia, os pesquisadores montaram um “acelerador de morcegos”: duas esteiras opostas cobertas por 8 mil folhas artificiais, instaladas em um caminho arborizado ao lado de um riacho em Bristol.

Segundo artigo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, em janeiro, o movimento relativo dessas esteiras conseguiu alterar a velocidade dos morcegos. Quando o acelerador se movia contra o sentido do voo, os animais desaceleravam; quando seguia no mesmo sentido, aceleravam. Foi a primeira evidência de que essa espécie pode, de fato, usar a melodia Doppler para guiar o voo.

Outro caso envolve os morcegos-ferradura, batizados pela folha de pele em formato de ferradura no nariz. Segundo o pesquisador Soshi Yoshida, que conduziu o estudo na Universidade Doshisha, no Japão, esses animais são caçadores habilidosos, mas havia um paradoxo: eles não ajustam seus chamados à variação de frequência causada pelo movimento das mariposas, embora façam isso ao analisar objetos parados.

Em experimentos com 11 morcegos, a equipe gravou os chamados enquanto os animais atacavam mariposas presas ao teto. De acordo com o estudo, publicado em maio na revista Communications Biology, os morcegos usam a ecolocalização também para reduzir ruídos: em vez de focar nos ecos mais comuns, ajustam seus chamados à frequência mais alta e constante, mesmo quando o sinal é fraco. Isso atenua os ecos de objetos próximos e destaca o bater das asas das mariposas.

Os morcegos também aprendem com a experiência. Em um dos episódios relatados, perceberam rapidamente que os pesquisadores eram a origem das mariposas e, quando o experimento foi interrompido por problemas mecânicos, foram até eles e, às vezes, pousaram sobre as pessoas.

Os morcegos-de-probóscide, do tamanho de um camundongo, se escondem em árvores e usam um repertório vocal complexo. Uma equipe liderada por Lena Dressler, pesquisadora do Museu de História Natural de Berlim, identificou 22 tipos de sílabas, combinadas em vocalizações mais elaboradas, segundo estudo publicado em julho na revista Annals of the New York Academy of Sciences. Muitos desses chamados ficam acima da faixa auditiva de presas e predadores, o que ajuda os animais a permanecer discretos.

Já os morcegos de lábio franjado, estudados pela pesquisadora Rachel Page no Panamá, se alimentam de rãs e sapos. Em experimentos com 15 espécies de anuros e 40 morcegos, sendo 21 adultos e 19 juvenis, os pesquisadores observaram que os jovens reagiam mais a sapos venenosos e menos às espécies palatáveis. O resultado sugere que parte desse conhecimento é adquirido por tentativa e erro.

Novas tecnologias, como pequenas mochilas de gravação acopladas aos animais, começam a revelar detalhes das caçadas em campo. Esse tipo de registro ajuda a entender melhor a ecolocalização dos morcegos e a complexidade de uma vida inteiramente guiada pelo som.

Compartilhe:

Leia também