Fone com ANC pode prejudicar a audição? Especialista explica os riscos e os cuidados
O cancelamento de ruído não é o principal risco para a audição, mas volume alto e uso prolongado exigem cuidado, segundo especialista em otorrinolaringologia.
Os fones com cancelamento ativo de ruído, conhecidos pela sigla ANC, ganharam espaço por tornar músicas, podcasts e chamadas mais audíveis em ambientes barulhentos. Mas um fone com ANC pode prejudicar a audição? Segundo o otorrinolaringologista Alexandre Camilotti Gasperin, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a resposta depende menos da tecnologia e mais de como ela é usada.
O funcionamento é eletrônico. Microfones instalados nos fones captam os sons do entorno, e o sistema emite ondas sonoras que se opõem a esses ruídos, reduzindo a percepção deles. O recurso costuma funcionar melhor com barulhos contínuos e de baixa frequência, como motores, ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. Já vozes e sons repentinos são mais difíceis de eliminar por completo. Há ainda o isolamento passivo, feito pelas almofadas e ponteiras de silicone, e muitos modelos combinam os dois recursos.
Para o especialista, o cancelamento pode até ajudar a proteger a audição. Em lugares barulhentos, muitas pessoas aumentam o volume para entender o que ouvem, e, ao reduzir a interferência do ambiente, o ANC diminui essa necessidade.
O benefício, porém, depende do comportamento de quem usa. Quem utiliza o cancelamento para escutar em volume muito alto por longos períodos continua exposto ao risco de lesões. Além disso, a sensação de silêncio pode esconder o nível real do som que chega ao ouvido. Por isso, conforto não é sinônimo de segurança.
A intensidade sonora é um dos fatores mais importantes. Segundo o médico, sons acima de 85 decibéis (dB) podem causar lesões, principalmente quando a exposição é prolongada ou frequente. Quanto maior o nível, menor tende a ser o tempo necessário para que haja dano, de modo que 85 dB não funciona como limite seguro universal. Como orientação prática, ele sugere manter o volume entre 30% e 50% da capacidade do equipamento, sem que isso garanta um nível específico de decibéis, já que a intensidade varia conforme o modelo e a gravação.
Quanto às pausas, Gasperin cita as recomendações conhecidas como 30-30, que indicam 30 minutos de uso seguidos de 30 minutos de descanso, e 40-20, com 40 minutos de uso e 20 minutos de pausa. Ele ressalta que ainda faltam orientações mais precisas para esse tipo de exposição, por isso esses intervalos devem ser vistos como referências de cautela, e não como garantia contra danos. Ativar recursos de monitoramento de exposição sonora no celular ou no próprio fone também ajuda a acompanhar o uso.
Os danos nem sempre aparecem de imediato, e algumas perdas se desenvolvem aos poucos. Zumbido, irritabilidade a sons e cansaço relacionado ao uso dos fones estão entre os sinais que merecem atenção. Esses sintomas, isoladamente, não confirmam perda auditiva causada pelos fones, mas são motivos para interromper a exposição e procurar avaliação médica, sobretudo se persistirem. Já a perda auditiva súbita exige atendimento urgente.
Sobre o Bluetooth, o especialista lembra que algumas pesquisas levantaram a hipótese de efeitos da radiação desses equipamentos, possibilidade que ainda não está comprovada. As evidências disponíveis não indicam que a exposição habitual à radiofrequência cause danos auditivos. O principal risco continua sendo o volume excessivo.
Crianças e adolescentes merecem atenção especial, já que estão entre os grupos que mais usam fones para ouvir música, assistir a vídeos, jogar e acompanhar aulas. Para Gasperin, o fator decisivo é a frequência de uso, e não a idade em si. Pais e responsáveis podem orientar sobre volume e pausas, ativar limites de volume quando disponíveis e observar se os jovens aumentam o som para abafar o ambiente.
Em resumo, o cancelamento ativo de ruído não é, por si só, o principal fator de risco para a audição. Ele pode ajudar a manter o volume mais baixo, mas não substitui o controle da intensidade, a limitação do tempo de uso e os intervalos de descanso.
